Série B: quando o dever de casa falha, a paixão chora!

Por Luzenor de Oliveira

O futebol cearense vive, neste momento, um misto de decepção e tristeza que ultrapassa o resultado frio das tabelas e alcança o coração de uma das torcidas mais apaixonadas do Brasil.

A decepção nasce da angústia por ver os dois principais clubes do Estado falharem no mais básico dos desafios: fazer o dever de casa, vencer quando era preciso, pontuar quando o cenário exigia reação. Cada tropeço em seus próprios domínios pesou como uma sentença anunciada, construída rodada após rodada, lance após lance.

A tristeza, contudo, tem raízes ainda mais profundas. Ela brota do contraste doloroso entre a força da paixão popular pelo futebol no Ceará e o desfecho que o destino reservou nesta temporada.

Entre os estados brasileiros, poucos demonstram tanto entusiasmo, presença nos estádios, fidelidade às cores e resistência emocional quanto o torcedor cearense. Aqui, o futebol não é apenas esporte: é identidade, conversa de esquina, programa de família, herança passada de pai para filho.

É justamente por isso que a junção desses dois sentimentos — decepção e tristeza — conduz, inevitavelmente, a uma reflexão amarga sobre o sobe e desce dos nossos grandes clubes.

Em 2025, com arquibancadas cheias, médias expressivas de público e torcidas gigantescas, ver Fortaleza e Ceará fora da Série A representa mais que um revés esportivo: é uma ferida aberta no imaginário coletivo do Estado.

Não se trata apenas de rebaixamento. Trata-se de um luto simbólico, como bem expressou a manchete deste site neste domingo (7). Um luto que não envolve apenas números, posições na tabela ou projeções financeiras, mas o impacto emocional de quem acreditou, apoiou, compareceu, cantou, sofreu e, mesmo assim, viu o sonho da elite nacional escapar pelos dedos.

O futebol, por sua natureza, é construção e reconstrução permanentes. Esse esporte ensina que nenhuma queda é definitiva, mas também castiga com rigor quem ignora seus fundamentos mais simples: gestão, planejamento, regularidade, respeito ao mando de campo.

O Ceará, que já mostrou ao Brasil sua capacidade de fazer grandes campanhas, agora se vê diante de um espelho incômodo, que exige autocrítica, responsabilidade e, sobretudo, coragem para recomeçar.

O Fortaleza, que se internacionalizou, fez uma reconstrução inacreditável, mas não suficiente para salvá-lo da degola. Os dois – Ceará e Fortaleza, tem, além do rebaixamento, outro viés catastrófico: cada um, com os seus tropeços e decepções, caiu com 43 pontos.

Entre a decepção que paralisa e a tristeza que silencia, resta ao torcedor cearense algo que nunca lhe faltou: resiliência. Porque se há um Estado que sabe sofrer pelo futebol, também é aquele que sabe se reerguer por ele. E talvez seja justamente desse chão de dor que surja a semente de um novo ciclo — mais lúcido, mais sólido e, quem sabe, novamente vitorioso.

(*) Jornalista, Sistema Ceará Agora de Comunicação