Energético “Baly Tadala” viraliza no Carnaval e reacende debate sobre banalização de medicamentos

O lançamento do energético “Baly Tadala”, da marca Baly Energy Drink, provocou forte repercussão nas redes sociais e abriu um debate sobre os limites da publicidade. Só no TikTok, vídeos e publicações sobre a bebida — edição limitada para o Carnaval de Salvador — já ultrapassam dois milhões de visualizações. A atenção se deve à associação feita por internautas entre o nome do produto e a tadalafila, medicamento indicado para o tratamento da disfunção erétil e que ganhou popularidade, de forma indevida, como pré-treino para melhorar o desempenho físico.

Diante da repercussão, o Conselho Federal de Farmácia (CFF) divulgou nota manifestando preocupação com o uso de trocadilhos e referências explícitas a um medicamento que exige prescrição médica e pode trazer riscos à saúde quando utilizado sem orientação profissional.

A Baly Brasil, por sua vez, afirma que a bebida não contém tadalafila nem qualquer outro fármaco em sua composição e que cumpre todas as normas sanitárias e regulatórias. Segundo a empresa, o produto é “completamente regular” e não apresenta riscos do ponto de vista toxicológico, estando enquadrado legalmente como bebida energética.

Apesar disso, o CFF avalia que a campanha contribui para a banalização do uso de medicamentos e pode estimular a automedicação. Para a entidade, associar um produto recreativo a um fármaco reforça no imaginário coletivo a ideia equivocada de que o consumo do remédio é simples, seguro e livre de consequências. “Medicamento não é produto de entretenimento, não é acessório de festa e não deve ser tratado como brincadeira. Medicamento não é brincadeira, nem mesmo no Carnaval”, critica o conselho.

O alerta ganha ainda mais relevância diante do aumento expressivo do consumo de tadalafila no Brasil. Em quatro anos, o uso do medicamento cresceu 216%, saltando de 21,4 milhões de unidades em 2020 para 67,7 milhões em 2024, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O CFF lembra que a automedicação é um problema histórico no país, contribuindo para o atraso no diagnóstico de doenças, agravamento de quadros clínicos, reações adversas evitáveis e aumento de internações por intoxicação medicamentosa. A entidade reforça que nenhum medicamento deve ser utilizado com base em modismos, piadas ou promessas implícitas de desempenho físico.

Embora o slogan da marca seja “a Baly que te leva para cima”, a empresa sustenta que o termo “tadala” não faz referência direta ao medicamento, mas a um conceito genérico de energia e vigor, alegando que a expressão já é utilizada de forma recorrente em músicas e produtos no mercado.

Especialistas, no entanto, alertam que a tadalafila é um medicamento indicado principalmente para disfunção erétil, hiperplasia prostática benigna e hipertensão arterial pulmonar. Seu uso recreativo e sem acompanhamento médico, especialmente entre jovens, pode causar efeitos colaterais como dor de cabeça, tontura, queda de pressão, alterações visuais e até problemas cardiovasculares, sobretudo quando associada a treinos intensos, substâncias estimulantes ou álcool.

A polêmica em torno do “Baly Tadala” expõe um debate mais amplo sobre responsabilidade publicitária, saúde pública e os riscos de normalizar o uso de medicamentos como parte do consumo recreativo.