Uma pesquisa liderada pelas universidades da Carolina do Norte e Stanford e pelo Instituto Woods para o Meio Ambiente, nos Estados Unidos, identificou que gestantes são expostas a dezenas de substâncias químicas comuns que podem adiantar o parto e interferir no peso do bebê ao nascer. De acordo com a pesquisa, publicada na revista Jama Network Open, esses efeitos perduram por toda a vida. Entre os contaminantes, estão ftalatos, plastificantes substitutos, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAPs) e fenóis halogenados, que são facilmente encontradas em alimentos, água, poluição do ar, produtos de higiene pessoal, fragrâncias e outros objetos domésticos.
“Esses compostos químicos são difíceis de evitar porque estão presentes em uma ampla gama de produtos que usamos diariamente. Pode ser difícil saber se os produtos os contêm e, mesmo quando sabemos, temos pouco controle sobre a exposição”, disse a primeira autora, Jessie Buckley, professora de epidemiologia da Escola de Saúde Pública Gillings, na Universidade da Carolina do Norte. “Embora existam algumas medidas práticas que as pessoas podem tomar, reduzir as substâncias nocivas na fonte é a maneira mais eficaz de proteger crianças e famílias.”
Os ftalatos e os plastificantes substitutos são comumente encontrados em muitos produtos para bebês, como brinquedos, cremes para assaduras, xampus e outros. Em 2017, a Comissão de Segurança de Produtos de Consumo dos Estados Unidos (CPSC) proibiu permanentemente ou restringiu severamente o uso de oito deles em objetos voltados ao público infantil, devido aos efeitos nocivos à saúde que a exposição pode causar.
No entanto, essa medida não abrangeu outros produtos, incluindo aqueles usados durante a gravidez. Agora, o novo estudo encontrou diversos outros ftalatos, incluindo aqueles que substituíram os ftalatos proibidos, e plastificantes em amostras coletadas de mulheres.
Para o trabalho, os pesquisadores recrutaram mais de cinco mil pares de mães e filhos nascidos entre 2000 e 2021 e coletaram dados sobre substâncias químicas encontradas em amostras de urina materna, duração da gravidez e peso ao nascer. Os pesquisadores testaram 113 compostos diferentes, comumente localizados em residências, no ar, alimentos e água.
Ao analisar as informações coletadas, a equipe descobriu que havia, em média, 45 contaminantes presentes em cada amostra materna. Os cientistas então examinaram como as diferenças na idade gestacional e no peso ao nascer estavam relacionadas a essas exposições químicas.
Diversos compostos apresentaram uma associação consistente com partos prematuros. Ftalatos, plastificantes substitutos e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos também foram relacionados a baixo peso ao nascer. Algumas outras substâncias químicas menos estudadas também foram ligadas a bebês mais magros.
Tatianna Ribeiro, obstetra da clínica Rehgio, em Brasília, diz que muitos estudos apontam que essas substâncias podem interferir em processos muito importantes da gestação, como o funcionamento de hormônios e até de mecanismos inflamatórios do organismo. “Também afetam a placenta, o órgão que faz essa ponte entre a mãe e o bebê. É por ela que chegam oxigênio e nutrientes. Então, quando existe alguma interferência nesse equilíbrio, pode haver impacto no crescimento do bebê e também na duração da gravidez.”
Alguns estudos associam maior exposição a ftalatos e substâncias semelhantes a maior risco de parto prematuro e de baixo peso ao nascer. Isso não significa que toda mulher exposta terá esse desfecho, mas mostra que é um tema que merece atenção.
“No pré-natal, o nosso papel é justamente orientar de forma preventiva. A gente não consegue eliminar tudo, mas consegue reduzir exposições desnecessárias e cuidar melhor do ambiente em que esse bebê está se desenvolvendo”, explica Tatiana.
Novas alternativas
Os pesquisadores também identificaram nas amostras compostos plastificantes introduzidos recentemente para substituir químicos tóxicos como os ftalatos. No entanto, esses compostos mais recentes apresentaram efeitos semelhantes aos das substâncias químicas que substituíram.
“Nosso estudo destaca a necessidade de políticas mais rigorosas para proteger as pessoas de substâncias químicas tóxicas”, disse a pesquisadora sênior Tracey Woodruff, professora de epidemiologia e saúde populacional em Stanford. “Por exemplo, descobrimos que várias substâncias químicas mais recentes, usadas para substituir as tóxicas, também são prejudiciais, o que reforça a importância de que ambas sejam devidamente avaliadas antes de serem comercializadas. Além disso, agências governamentais que avaliam os riscos à saúde associados a substâncias químicas tóxicas como os ftalatos devem incorporar nossas descobertas para reduzir a exposição e garantir gestações mais saudáveis.”
De acordo com Buckley, o estudo ressalta a importância de reduzir a exposição a substâncias químicas que afetam a gravidez, já que mesmo pequenas alterações no peso ao nascer ou na idade gestacional podem ter impactos significativos na saúde.
“As gestantes correm o risco de exposição a substâncias químicas por meio de múltiplas fontes, muitas delas fora de seu controle”, disse Woodruff. “Governos e empresas precisam se empenhar mais para reduzir a presença de substâncias químicas nocivas em produtos de uso diário e garantir que novas substâncias químicas sejam seguras, o que levará a crianças e famílias mais saudáveis”, completou.
Segundo Fernanda Parra, endocrinologista em São Paulo, algumas mudanças simples podem ajudar bastante. “Recomendo evitar aquecer alimentos em recipientes plásticos, dar preferência a potes de vidro ou inox, reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados e optar por produtos de higiene e cosméticos com fórmulas mais simples e livres de ftalatos e parabenos. Também é importante manter os ambientes ventilados, já que algumas dessas substâncias podem estar presentes na poeira doméstica. Não há como eliminar totalmente a exposição, mas é possível reduzi-la de forma significativa com hábitos conscientes”, orientou.
