Consumo frequente de bebidas açucaradas e sucos de frutas desde a infância pode elevar em cerca de 52% o risco de hipertensão na vida adulta, segundo estudo liderado pela Universidade de Toronto, no Canadá, e publicado ontem na revista científica Circulation, da Associação Americana do Coração. A pesquisa acompanhou mais de 25 mil pessoas durante 25 anos e identificou uma relação consistente entre a ingestão desses alimentos e o desenvolvimento de pressão alta ao longo do tempo.
A pesquisa analisou dados de 25.749 participantes que ingressaram no estudo ainda crianças ou adolescentes, com idades entre 9 e 16 anos. Durante o acompanhamento, os voluntários responderam periodicamente a questionários sobre hábitos alimentares, estilo de vida, prática de atividades físicas, tabagismo e condições de saúde.
Os resultados mostraram que indivíduos que consumiam duas ou mais porções diárias de bebidas adoçadas com açúcar apresentaram risco 52% maior de desenvolver hipertensão, quando comparados àqueles que ingeriam menos vezes. Entre os diferentes produtos avaliados, cada dose diária de refrigerante esteve associada ao aumento de 23% na probabilidade de diagnóstico, enquanto bebidas esportivas elevaram esse percentual em 36%.Play Video
Para a pesquisadora Vasanti Malik, da Universidade de Toronto e autora sênior do trabalho, os resultados reforçam a importância dos hábitos alimentares adotados ainda na infância. “A hipertensão arterial também está surgindo cada vez mais cedo na vida, com taxas crescentes observadas em adultos jovens, crianças e adolescentes, o que destaca a importância da detecção e prevenção precoces”, alertou Malik.
Fruta: a melhor opção
A análise também identificou associação semelhante para o consumo de sucos de frutas. Os participantes que relataram ingerir pelo menos uma porção e meia por dia apresentaram risco 35% superior de desenvolver pressão alta em comparação com aqueles que consumiam menos de uma dose semanal. No caso do suco de laranja, cada copo diário foi relacionado a aumento de 20% na ocorrência da condição. Já o caldo de maçã e outras variedades não demonstraram associação significativa.
De acordo com Ana Paula Rocha, endocrinologista do Hospital Anchieta, em Brasília, o consumo frequente e excessivo de suco de frutas pode contribuir para o aumento do risco de hipertensão arterial, embora esse efeito pareça ser mais intenso com refrigerantes e outras bebidas açucaradas. “Isso ocorre porque, ao transformar a fruta em suco, há uma perda significativa de fibras e passa-se a consumir uma quantidade maior de açúcares naturais com rápida absorção.”
“Ao longo dos anos, esse padrão pode favorecer ganho de peso, resistência à insulina, alterações metabólicas e mecanismos inflamatórios associados ao aumento da pressão arterial. É importante destacar que o problema não está no consumo ocasional de um copo de suco natural, mas sim na ingestão frequente e em grandes quantidades. Do ponto de vista cardiovascular, a melhor escolha continua sendo a fruta inteira, que oferece fibras, maior saciedade e uma resposta metabólica mais favorável”, completou a especialista.
Segundo os pesquisadores, a substituição dessas bebidas por alternativas mais saudáveis pode reduzir substancialmente o risco cardiovascular. Os modelos estatísticos indicaram que trocar uma porção diária do líquido açucarado por uma fruta inteira esteve associado a redução de 22% na probabilidade de hipertensão.
Outras trocas também apresentaram benefícios. A substituição de refrigerantes, bebidas esportivas e produtos semelhantes por água ou leite foi relacionada a uma redução de até 13% no risco da doença. No entanto, essa mesma relação não foi observada quando o suco de frutas foi trocado por esses líquidos.
Os autores observaram que a quantidade total de frutose consumida parece ser menos importante do que a forma como esse açúcar é ingerido. Enquanto frutas inteiras não foram associadas ao aumento do risco, bebidas industrializadas e até mesmo determinados sucos mostraram relação com o surgimento da hipertensão.
Mudança comportamental
Igor Trotte, endocrinologista e nutrólogo, no Rio de Janeiro, a discussão mais importante é cultural. “Muita gente ainda enxerga suco natural como uma escolha automaticamente saudável. Ele pode fazer parte da alimentação, mas não deve ser tratado como livre, principalmente para crianças. A melhor troca não é sair do refrigerante para o suco em grandes quantidades. A melhor opção é sair das bebidas doces para água e fruta inteira. Essa é a mudança que mais faz sentido do ponto de vista metabólico, cardiovascular e comportamental. Também é importante não demonizar as frutas, o problema não são elas, e sim transformá-las numa bebida rápida, calórica, pouco saciante e consumida todos os dias como se fosse inofensiva.”
Os pesquisadores ressaltam que a pressão alta é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares graves, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Embora características como idade, histórico familiar e fatores genéticos não possam ser modificados, escolhas relacionadas a alimentação, atividade física e tabagismo influenciam diretamente a probabilidade de desenvolver o problema.
