A crise interna no PL do Ceará, desencadeada pelas críticas da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ao movimento do deputado federal André Fernandes em favor de uma aliança com o pré-candidato do PSDB ao Governo do Estado, Ciro Gomes, ultrapassou as fronteiras cearenses e passou a provocar inquietação entre dirigentes nacionais do partido.
O principal temor é o impacto negativo do episódio junto ao eleitorado feminino, segmento considerado estratégico para o projeto político do ex-presidente Jair Bolsonaro. Michele tem forte inserção junto as mulheres e, nos últimos três anos, cumpriu um papel importante para o PL ampliar os espaços para candidaturas femininas.
RESISTÊNCIA A ‘ACORDÃO’ DO PL COM PSDB
Os repórteres Carlos Silva e Sátiro Sales revelam, no Jornal Alerta Geral, os bastidores da crise no PL. O impasse teve origem na resistência de Michelle à aproximação entre o PL e Ciro Gomes, articulação respaldada pelo senador Flávio Bolsonaro e defendida por André Fernandes. Michele assumiu apoio à pré-candidatura do senador Eduardo Girão (NOVO) ao Governo do Estado. Ela o considera fiel à pauta da direita e ao bolsonarismo.
A ex-primeira-dama mantém posição firme em favor da pré-candidatura da deputada federal Priscila Costa ao Senado, enquanto André trabalha para viabilizar a candidatura do pai, o pastor Alcides Fernandes, dentro do acordo político costurado com Ciro.
DESRESPEITADA E MALTRATADA
A preocupação ganhou força após Michelle divulgar um novo vídeo nas redes sociais relatando os bastidores do rompimento com o enteado, o senador Flávio Bolsonaro. Na gravação, ela afirmou ter sido “desrespeitada” e “maltratada” durante uma conversa telefônica, após manifestar oposição à aliança entre PL e Ciro Gomes no Ceará.
‘’Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou no telefone. Eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política’’, revela Michelle, ao expor os motivos para o seu distanciamento da pré-campanha de Flávio.
O episódio remonta ao fim do ano passado, quando a ex-primeira-dama entrou em rota de colisão com integrantes da família Bolsonaro ao criticar publicamente a aproximação com Ciro Gomes.
Flávio classificou a postura da madrasta como “autoritária”, enquanto o deputado Eduardo e o vereador Carlos Bolsonaro também saíram em defesa da estratégia partidária. Embora o senador tenha pedido desculpas dias depois, o desconforto entre os dois permaneceu.
COBRANÇAS MAIS DURAS
Ao retomar o tema agora, Michelle reacendeu a disputa interna em um momento delicado para o PL, justamente quando o partido tenta reorganizar sua estratégia eleitoral nacional. O distanciamento de Michele gera inquietação entre os dirigentes nacionais do PL que querem maior proximidade de Flávio com o eleitorado feminino. Michele representa o elo para essa conexão.
Outro ponto de apreensão envolve o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro. Aliados avaliam que Bolsonaro foi colocado em uma espécie de “sinuca de bico”, diante do conflito entre sua esposa e o filho escolhido para liderar o projeto presidencial do grupo político.
A avaliação é de que, caso a crise se aprofunde, Bolsonaro poderá ser pressionado pelos demais filhos a assumir uma posição pública, ampliando o desgaste interno no momento em que o partido busca transmitir unidade.
Há, nesse cenário de conflitos, outra leitura: apesar da preocupação de parte dos dirigentes, integrantes de outra ala do bolsonarismo interpretam o episódio de forma diferente. Para esse grupo, Michelle aproveita o momento para reforçar seu protagonismo político e demonstrar que seu apoio continua sendo um ativo importante dentro do campo conservador e nas futuras disputas eleitorais. Diferente dessa interpretação, Michele diz, no vídeo, que não briga por espaços para si. A firmeza nas críticas da ex-primeira-dama escala a crise no PL do Ceará e ganha, nesta quinta-feira (25), o noticiário nacional.
