Morre homem que organizou “velório em vida” após diagnóstico de câncer

Tiago Martins Pitthan, o homem que decidiu organizar o próprio velório porque não queria “faltar” à despedida, morreu aos 49 anos, em Campo Grande. 

Diagnosticado com câncer de estômago em estádio avançado, Tiago transformou o que costuma ser um momento de ausência em presença, e reuniu amigos, familiares e até desconhecidos em uma festa para celebrar a própria história. 

No domingo (5/7), Tiago publicou um último vídeo nas redes sociais, deixando uma mensagem de despedida. “Estou bem, em paz, feliz. Valeu a pena. Tudo valeu a pena. Tive uma vida boa e é isso. Eu venci. Um beijo do Bom Sujeito.” 

A frase resume bem a forma como Tiago escolheu viver o período após descobrir que o câncer não tinha mais possibilidade de cura. Desde o diagnóstico, ele dizia que não queria controlar a morte, mas sim as coisas que ainda podia fazer. Com isso em mente, no dia 30 de maio, Tiago organizou e esteve no próprio velório. 

O antigo galpão de uma cervejaria em Campo Grande recebeu bandas, amigos, rodas de conversa e uma programação pensada por ele em detalhes. Teve bossa nova, samba, rock, flash mob e um aquarelista pintando a festa em tempo real. 

Houve também o momento de subir no palco. Mesmo sem nunca ter tocado um instrumento antes, Tiago começou a aprender depois que a doença avançou.

A relação de Tiago com o diagnóstico nunca foi de negação. O câncer foi descoberto em março de 2024, após meses de sintomas. No réveillon anterior, durante uma viagem a Bonito (MS), ele percebeu que não conseguia mais comer normalmente, sentia o estômago cheio logo na primeira garfada e vomitava. 

A endoscopia revelou um adenocarcinoma gástrico, o tipo mais comum de câncer de estômago. A princípio, ele passaria por uma cirurgia para retirada do órgão, mas, durante o procedimento, os médicos encontraram metástases no intestino, no peritônio e sinais de comprometimento pulmonar. E foi concluído que a cirurgia curativa deixou de ser uma opção. 

Mesmo durante o tratamento, Tiago continuou trabalhando, treinando e mantendo a rotina o maior tempo possível. Com a progressão da doença, perdeu peso, ficou mais fraco e passou a conviver com mais limitações. Apesar disso, seguiu fazendo planos, voltou a Bonito, desceu 70 metros de rapel até o Abismo Anhumas, e ainda saltou de paraquedas. 

Quando decidiu organizar o próprio velório, Tiago já pensava no que viria depois. Separou senhas, definiu o destino de objetos pessoais e conversou com pessoas próximas. A mãe, que cuidava dele durante o tratamento, acompanhou de perto os últimos meses. Tiago havia voltado para Campo Grande justamente para ficar próximo dos pais e ajudar a cuidar deles.

Com o avanço da doença, fazia quimioterapia paliativa e imunoterapia. O objetivo já não era eliminar o tumor, mas tentar controlar a progressão e preservar qualidade de vida. Mas ele dizia não ter medo da morte, mas do caminho até ela, de sentir dor, ficar preso na cama e deixar de fazer as coisas que queria. 

Tiago será velado no Memorial Park, em Campo Grande, nesta segunda-feira (6/7), a partir das 10h.