Proposta de selo do TSE para premiar pesquisas eleitorais gera reação e críticas de grandes institutos

A proposta do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, de criar um selo para premiar os institutos de pesquisa cujos levantamentos mais se aproximarem do resultado das urnas provocou forte reação das principais empresas do setor. Os institutos afirmam que a iniciativa parte de uma premissa equivocada ao tratar pesquisas eleitorais como previsões de resultado.

Batizado de “Selo Acurácia Eleitoral”, o projeto prevê reconhecer, após o segundo turno das eleições gerais, os institutos que apresentarem maior proximidade entre os dados divulgados e o resultado oficial das urnas. A avaliação consideraria apenas pesquisas de boca de urna e levantamentos realizados nos sete dias anteriores ao pleito, desde que registrados no sistema do TSE e divulgados ao público.

A proposta foi apresentada nesta terça-feira (14), durante reunião entre Nunes Marques e representantes de institutos de pesquisa. O encontro ocorreu dias após o ministro determinar a suspensão da divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel, decisão que gerou críticas e foi classificada por empresas do setor como um ato de censura.

Nos bastidores, participantes da reunião afirmaram que a iniciativa foi interpretada como uma tentativa de reduzir o desgaste provocado pelo episódio envolvendo a AtlasIntel. A avaliação, porém, foi de que a proposta acabou ampliando a insatisfação dos institutos.

Institutos reagem

A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) criticou duramente a proposta.

“Pesquisas medem a intenção de voto no momento em que são realizadas. Não são previsões nem promessas de resultado. Exigir que uma pesquisa acerte o resultado é confundir ciência com bola de cristal”, afirmou a entidade.

Segundo a associação, o selo pode criar um incentivo para que institutos sem rigor metodológico apenas reproduzam ou ajustem seus números com base no consenso das pesquisas divulgadas na reta final da campanha.

A Abep também sustenta que a qualidade de uma pesquisa deve ser avaliada por critérios científicos, como metodologia, amostragem, transparência e execução do trabalho de campo, e não apenas pela proximidade com o resultado das urnas.

O fundador do Instituto Ideia, Maurício Moura, afirmou que a proposta pode desestimular a divulgação de pesquisas nos dias que antecedem a eleição.

Já a diretora do Datafolha, Luciana Chong, disse que o projeto demonstra um equívoco sobre a natureza das pesquisas eleitorais.

“Pesquisas são estimativas estatísticas, sujeitas à margem de erro, metodologias diferentes e mudanças no comportamento do eleitorado. Não faz sentido reduzi-las a um ranking baseado apenas na proximidade com o resultado final.”

AtlasIntel apoia a iniciativa

Em posição divergente da maioria dos grandes institutos, o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, declarou apoio à proposta.

Segundo ele, a criação de critérios objetivos para medir a precisão das pesquisas pode contribuir para o aperfeiçoamento do setor. Roman afirmou ainda que a empresa está à disposição do TSE para colaborar na discussão metodológica, citando experiências internacionais semelhantes.