Quem trabalha à noite ou precisa dormir durante o dia nem sempre consegue ter um descanso contínuo. Barulhos, luz natural, compromissos e interrupções frequentes fazem com que o sono seja fragmentado, reduzindo sua qualidade e dificultando a recuperação do organismo.
Embora um cochilo curto possa ser benéfico em algumas situações, especialistas alertam que dormir “quebrado” com frequência está longe de oferecer os mesmos benefícios de uma noite bem dormida. O chamado sono fragmentado compromete funções importantes do cérebro, interfere na produção de hormônios e, quando se torna crônico, pode aumentar o risco de doenças.
O organismo foi feito para dormir à noite
Segundo o pesquisador da Medicina do Sono Marco Túlio de Mello, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), o sono é regulado por dois mecanismos, o ritmo circadiano, influenciado pela alternância entre claro e escuro, e o sistema homeostático, responsável pelo aumento do cansaço ao longo do dia.
Quando a pessoa dorme durante o dia, ela consegue descansar principalmente por causa do cansaço acumulado, mas não aproveita plenamente os benefícios proporcionados pelo relógio biológico durante a noite.
“Dormir de dia não é a mesma coisa que dormir à noite. Existe uma diferença muito grande em qualidade e eficiência”, afirma Mello.
O especialista explica que o descanso noturno favorece a liberação de hormônios importantes para a recuperação do organismo, como o hormônio do crescimento (GH), além de ocorrer em um momento em que a temperatura corporal está mais baixa, facilitando um sono profundo e restaurador.
Para quem trabalha em turnos, a recomendação é tentar manter períodos de descanso noturno sempre que possível. Isso porque o sono diurno costuma ser mais curto e frequentemente interrompido por fatores ambientais, o que favorece um déficit crônico de sono.
Segundo o pesquisador, estudos já apontam que trabalhadores noturnos apresentam maior risco de desenvolver doenças ao longo da vida, incluindo alguns tipos de câncer, em razão da privação prolongada de um sono de qualidade.
Cérebro sofre com interrupções constantes
De acordo com a neurologista Natália Nasser Ximenes, do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, um cochilo interrompido diversas vezes perde boa parte de seu efeito restaurador, já que o cérebro não consegue completar as fases necessárias para consolidar a memória e recuperar a atenção.
“As interrupções impedem que o cérebro complete os estágios do sono necessários para consolidar memória e restaurar a atenção, diminuindo os benefícios do cochilo”, explica Natália.
A neurologista afirma que o sono fragmentado prejudica a memória, reduz a concentração, aumenta o tempo de reação e dificulta o raciocínio e a tomada de decisões.
Quando essa situação passa a ser frequente, vem acompanhada de sonolência excessiva ou interfere nas atividades diárias, ela recomenda procurar avaliação médica para investigar possíveis distúrbios do sono.
Para quem precisa cochilar durante o dia, a orientação é priorizar um ambiente silencioso, escuro e confortável, além de limitar o cochilo entre 10 e 30 minutos, preferencialmente no início da tarde.
Impactos vão além do cansaço
O neurologista Lucio Huebra, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, explica que o sono fragmentado altera a chamada arquitetura do sono, impedindo que a pessoa permaneça tempo suficiente nas fases profundas e no sono REM, fundamentais para diversas funções do organismo.
“Mesmo com quantidades suficientes de horas de sono é possível manter fadiga, sonolência, dificuldade de concentração, desatenção, irritabilidade e piora do humor”, destaca Huebra.
Segundo o especialista, durante o sono profundo ocorrem processos como reparo dos tecidos, fortalecimento do sistema imunológico, liberação do hormônio do crescimento e consolidação da memória. Já o sono REM participa da regulação das emoções, do aprendizado e da recuperação cognitiva.
Além dos prejuízos imediatos, a fragmentação frequente do sono pode favorecer aumento do cortisol, manter o organismo em estado constante de alerta e elevar, ao longo dos anos, o risco de doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, ansiedade, depressão e declínio cognitivo.
Para pessoas que trabalham em turnos, Huebra orienta criar condições que simulem o período noturno, mantendo o quarto totalmente escuro, silencioso, com temperatura agradável e rotina regular de descanso para reduzir os impactos do sono durante o dia.
Mesmo para quem não tem alternativa a não ser dormir durante o dia, a qualidade do descanso faz diferença para a saúde. Como o organismo está naturalmente programado para permanecer acordado nesse período, interrupções frequentes tendem a comprometer ainda mais a recuperação física e mental.
