Pela primeira vez, cientistas demonstraram que uma vacina pode prevenir o desenvolvimento do câncer de pâncreas em pacientes de alto risco. Publicado na revista Cancer Discovery, o artigo relata que o imunizante experimental direcionado a uma mutação do gene KRAS — um dos principais fatores genéticos da doença — estimulou respostas específicas para essa alteração em 90% dos participantes do estudo, que tinham alta probabilidade de desenvolver adenocarcinoma ductal pancreático.
Esse é o tipo mais comum e agressivo de câncer de pâncreas, correspondendo a mais de 90% dos casos diagnosticados. “Ele se desenvolve nas células pancreáticas e costuma ter um comportamento bastante invasivo, podendo ser do tecido pancreático ou dos ductos pancreáticos”, explica Lucas Nacif, cirurgião do aparelho digestivo e membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD). Geralmente, o tumor se desenvolve ao longo de muitos anos a partir de lesões precursoras, como cistos, que devem ser acompanhadas clinicamente. “Em muitos casos, o tratamento cirúrgico deve ser realizado o quanto antes, dependendo das características”, orienta Nacif.
Tanto nessas lesões quando na maioria dos tumores de pâncreas, são identificadas mutações em um gene chamado KRAS. A vacina experimental faz com que o sistema imunológico do paciente reconheça e destrua as células portadoras das variantes, antes que elas possam se transformar em um tumor. O estudo de fase 1, desenhado para avaliar a segurança da substância, foi conduzido por pesquisadores do Centro de Câncer Kimmel da Universidade de Johns Hopkins e do Centro Skip Viragh para Câncer de Pâncreas, ambos nos Estados Unidos.
Predisposição
O estudo avaliou a mKRAS-VAX, uma vacina à base de peptídeos que tem como alvo as seis mutações KRAS mais comuns encontradas no câncer de pâncreas. Vinte participantes com predisposição hereditária e lesões no órgão identificadas por meio de exames de imagem receberam a substância entre abril de 2022 e fevereiro de 2026. Quatro doses foram administradas ao longo de 13 semanas. Os pesquisadores monitoraram os participantes quanto à segurança e às respostas imunológicas com amostras de sangue e avaliações clínicas.
Dezoito dos 20 voluntários, ou 90%, desenvolveram uma resposta imune significativa à substância. Os participantes apresentaram um aumento mediano de 18,2 vezes na produção de células T específicas para o gene KRAS mutante, indicando que a vacina ativou com sucesso as estruturas do sistema imunológico capazes de reconhecer a variante genética. Por até dois anos após a imunização, os “soldados” induzidos pela mKRAS-VAX mantiveram-se detectáveis.
Após um período médio de acompanhamento de 16,5 meses, nenhum dos participantes desenvolveu câncer ou lesão pancreática de alto risco que exigisse remoção cirúrgica. Segundo o estudo, a vacina mostrou-se segura, com todos os eventos adversos relacionados ao tratamento classificados como leves a moderados. Os efeitos colaterais mais comuns foram reações no local da injeção, fadiga, calafrios e sintomas semelhantes aos da gripe, todos resolvidos sem necessidade de intervenção.
Regressão
Os pesquisadores também realizaram uma análise exploratória de cistos pancreáticos em pacientes que tinham exames de imagem de acompanhamento disponíveis. Cinco dos 20 participantes do estudo tiveram regressão completa de pequenos nódulos, enquanto outros três apresentaram redução parcial. Os demais permaneceram estáveis.
Apesar dos resultados animadores, os pesquisadores observam que o estudo é inicial e, na primeira fase, foi concebido para avaliar a segurança e a resposta imunitária, e não se a vacina previne o câncer. Além disso, a amostra é pequena e o acompanhamento foi relativamente curto, o que exigirá mais investigações, que já estão em curso.
“Esse é apenas o começo, mas as descobertas sugerem que o sistema imunológico está sendo ativado”, disse, em um comunicado, Elizabeth Jaffee, vice-diretora do Johns Hopkins Kimmel Cancer Center e coautora senior do estudo. “Temos muito trabalho a fazer, mas esse é um bom começo voltado para a prevenção, algo que ninguém havia pensado em fazer antes.”
A vacina KRAS foi testada pela primeira vez em 2020 em pacientes que haviam sido submetidos a cirurgia e apresentavam alto risco de recorrência do câncer. O resultado daquele estudo, publicado na revista Nature Communications, em 2026, constatou que, quando o imunizante vacina gerava uma forte resposta imunológica, os participantes permaneciam livres da doença por pelo menos cinco anos.
O sucesso dos testes de 2020 motivou a ideia da vacina preventiva. “Pensamos que, se conseguíssemos observar uma resposta imunológica em pacientes com câncer, a vacina deveria funcionar ainda melhor em pessoas com maior risco devido a histórico familiar, alteração genética ou cisto no pâncreas”, revela Neeha Zaidi, professora associada de oncologia e coautora senior do estudo. “A possibilidade de vacinar precocemente pessoas em risco, na tentativa de evitar o desenvolvimento de câncer no futuro, é uma oportunidade importante”, acrescentou Jaffee.
Testes genéticos realizados em amostras de sangue permitiram detectar precocemente o câncer de pâncreas, aumentando a sobrevida a longo prazo, segundo pesquisadores da Universidade de Kanazawa, no Japão. Embora possível, o tratamento curativo só ocorre em 2% a 3% dos casos, principalmente devido à dificuldade de identificação precoce.
Cientistas da Escola de Ciências Médicas Preventivas Avançadas da universidade japonesa já haviam desenvolvido um teste diagnóstico para câncer de pâncreas chamado Panregza, que combina padrões de expressão gênica com o marcador tumoral CA19-9. Embora a eficácia tenha sido demonstrada principalmente em casos avançados, a utilidade para detectar a doença em estágio inicial ainda não havia sido investigada.
