Cerco a fraudes: editorial do Estadão defende fim das emendas Pix após auditoria do TCU apontar irregularidades em 82% dos repasses

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Um editorial publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo defende que o Supremo Tribunal Federal (STF) declare a inconstitucionalidade das chamadas emendas Pix, após a divulgação da maior auditoria já realizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) sobre essa modalidade de transferência de recursos públicos.

O posicionamento do jornal tem como base o relatório do TCU, que identificou irregularidades em 82 das 100 emendas Pix fiscalizadas, referentes a repasses realizados entre 2020 e 2024. Segundo a auditoria, foram encontrados indícios de prejuízo de R$ 49,1 milhões em um universo de R$ 198,1 milhões analisados.

Para o Estadão, os dados demonstram que as falhas não representam casos isolados, mas revelam problemas estruturais no modelo criado para permitir a transferência direta de recursos federais a estados e municípios.

DISTORÇÕES NA ÁREA DA SAÚDE
O jornalista Luzenor de Oliveira aborda, nesta quarta-feira (22), em seu comentário no Jornal Alerta Geral, as distorções na transferência de recursos, por meio de emendas parlamentares, na área da saúde.
Um dos exemplos desse tipo de distorção é Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza, que aparece como o município que menos receberam verbas, per capta, para a área da saúde.

HISTÓRICO DAS EMENDAS PIX
As emendas Pix foram instituídas pela Emenda Constitucional nº 105, de 2019, originada de proposta da então senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) e relatada na Câmara pelo deputado Aécio Neves (PSDB-MG). O objetivo era reduzir a burocracia na liberação de recursos públicos, mas, segundo o editorial, a simplificação acabou comprometendo os mecanismos de controle, transparência e fiscalização.

O texto destaca que o universo auditado corresponde a apenas uma pequena parcela dos R$ 21 bilhões distribuídos por meio das emendas Pix entre 2020 e 2024. Na avaliação do jornal, se a amostra refletir o comportamento do conjunto das transferências, o volume de recursos potencialmente comprometidos pode ser muito superior ao já identificado pelos órgãos de controle.

Entre as irregularidades apontadas pelo TCU estão suspeitas de superfaturamento, fraude em licitações, pagamentos sem comprovação documental, desvio de finalidade e utilização de contas bancárias apenas como “contas de passagem”, dificultando o rastreamento do dinheiro público.

O editorial também cita investigações da Polícia Federal que identificaram indícios de irregularidades em obras financiadas com emendas Pix em municípios de Roraima. Em um dos casos mencionados, R$ 13 milhões destinados à construção de 300 casas populares resultaram na entrega de apenas uma unidade, posteriormente abandonada.

O Estadão observa ainda que o ministro Flávio Dino, relator no STF das ações sobre a constitucionalidade das emendas Pix, tentou aperfeiçoar o modelo ao exigir maior transparência, planos de trabalho, contas específicas e mecanismos de rastreabilidade. No entanto, segundo o jornal, a auditoria do TCU demonstra que essas medidas não foram suficientes para eliminar as fragilidades do sistema.

O editorial lembra que, em 2024, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, já havia solicitado ao STF a declaração de inconstitucionalidade das emendas Pix. Para a Procuradoria-Geral da República, o mecanismo permite a transferência de recursos sem controles adequados, comprometendo princípios constitucionais como a publicidade, a legalidade, a impessoalidade e a responsabilidade na gestão do dinheiro público.

Na conclusão, o jornal sustenta que o modelo teria esgotado todas as tentativas de aperfeiçoamento e defende que o Supremo siga o mesmo caminho adotado no julgamento do chamado orçamento secreto, reconhecendo a incompatibilidade das emendas Pix com a Constituição e declarando sua inconstitucionalidade.