Fazer sexo toda semana tem relação com melhor desempenho cognitivo em idosos, aponta pesquisa

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Um estudo publicado pelas universidades de Coventry e Oxford, no Reino Unido, constatou benefícios mentais positivos entre idosos que apresentavam uma rotina sexual semanal ativa. A pesquisa acompanhou 73 adultos com idades entre 50 e 83 anos, utilizando um teste para avaliar a função cognitiva, que teve melhores resultados entre aqueles que relatavam praticar sexo semanalmente, apresentando pontuações globais mais altas do que aqueles que faziam mensalmente ou que não praticavam.

A pesquisa foi liderada por Hayley Wright, pesquisadora do Centro de Investigação em Psicologia, Comportamento e Realização da Universidade de Coventry. Nos resultados, os cientistas notaram que a atividade sexual frequente apresentou reações específicas nas regiões cerebrais, com respostas mais intensas em alguns comportamentos, como a fluência verbal — capacidade de gerar palavras rapidamente — e nas habilidades visuoespaciais — como cópia de figuras e percepção de espaço.

Relações sem barreiras

O médico geriatra Rodrigo Cesar, especialista em clínica médica e focado em envelhecimento saudável, fala sobre a necessidade de um entorno positivo e acolhedor para idosos, que permite que, entre outras coisas, ele possa ter vida sexual ativa.

— Esta situação de o paciente ser sexualmente ativo e ter um melhor desempenho cognitivo está relacionada a um envelhecimento saudável global. Quem tem mais relação sexual acaba por ter mais interação social e bons hábitos de vida — dormindo bem, alimentando-se bem —, tendo menos risco de doenças crônicas, como hipertensão e diabete — afirmou Rodrigo.

Outro dado importante apresentado pela equipe de estudos foi a ampla consideração das “fronteiras do sexo”, ou seja, as relações de casais com o sexo a dois não são a única alternativa, dando como exemplo a masturbação. Cesar defende que os mais velhos podem e devem explorar também essas opções.

— A primeira e mais importante afirmação é que o sexo e a masturbação também remetem a um bom envelhecimento. O paciente que tem disposição para se masturbar, para buscar o prazer sozinho, também é um paciente que deve ter mais estímulos sensoriais, conhecer o próprio corpo — afirma o especialista, que não deixa de valorizar as experiências a dois. — O toque um no outro, o carinho, a comunicação que envolve todo o processo. Esses benefícios adicionais a gente não encontraria, obviamente, no paciente que se masturba.

Sexo na melhor idade e o tabu

Mesmo com uma lista de benefícios que a atividade sexual de idosos pode trazer, o assunto segue até hoje como um tabu na sociedade, e poucas vezes é discutido entre quem oferta cuidados e os próprios mais velhos. Para a sexóloga Erica Mantelli, especialista em sexualidade humana pela Universidade de São Paulo (USP), é preciso um processo de reflexão sobre o sexo ao longo da vida, mesmo em idades mais avançadas.

— Para superar o tabu e aproveitar os benefícios, o primeiro passo é entender que a sexualidade não tem data de validade nem limite para acabar. O desejo sexual e a necessidade de carinho acompanham o ser humano a vida inteira, e a ideia de que o idoso não tem vida sexual ativa é um preconceito — conta Erica.

A especialista também fala sobre os efeitos que a invisibilização do tema pode trazer, que vão além da perda de benefícios.

— Muitos acabam por ter disfunções sexuais sem procurar ajuda, e frequentemente os médicos nem abordam questões sexuais em consultas de rotina de pessoas mais idosas, algo que deveria fazer parte da saúde de todo o ser humano. Avaliar a vida sexual é importante, e se existe algum grau de disfunção sexual, isso pode ser apenas a ponta do iceberg de outras doenças, como diabetes, alterações da tireoide ou hipertensão — completou.

Mulheres são as que mais sofrem

No grupo de estudo analisado pelos cientistas, todos os 10 participantes que relataram total ausência de atividade sexual nos últimos 12 meses eram do gênero feminino. Os pesquisadores apontam que isso reflete dinâmicas sociais da terceira idade, como taxas mais elevadas de viuvez precoce entre mulheres e menor frequência de recasamento nessa faixa etária.

Rodrigo Cesar conta que os dados da pesquisa são vistos por ele na rotina como médico geriatra. Apesar dos números negativos, ele explica que é importante considerar que os benefícios da vida sexual não são competentes só aos homens, mas para todos os gêneros.

— A questão que tem de ficar clara é que os benefícios não são exclusivos para o sexo masculino ou feminino. Os benefícios de uma vida sexual ativa são globais. Há uma repercussão emocional importante; infelizmente, muitas mulheres acabam por se fechar e não conversam sobre isso nem com a geriatria, nem com os próprios ginecologistas ou outros profissionais — afirmou.

Os especialistas reforçam que as mulheres também precisam ser vistas na cadeia de benefícios da atividade sexual permanente ao longo da vida. Eles citam pontos que abrangem exclusivamente idosas, como a ajuda na lubrificação e elasticidade vaginal, mesmo após a menopausa.

Ressalva do estudo

Mesmo com um primeiro resultado que evidenciou dados animadores, a pesquisa das universidades britânicas afirma que a amostra colhida pelos cientistas ainda é pequena para a criação de uma tese concreta sobre a relação entre o sexo e as benesses aos mais velhos. Por ser um estudo com 73 pessoas, os próprios autores alertam que não é possível afirmar causa e efeito. Erica Mantelli, porém, conta sobre possíveis efeitos químicos no cérebro humano.

— O estudo demonstra uma associação entre ter relação sexual ativa e ter bons resultados cerebrais, mas isso não prova causa e efeito, embora existam explicações para essa relação. Durante o sexo, o cérebro libera substâncias como a dopamina e a oxitocina, que estão ligadas ao prazer, à motivação e ao vínculo, o que também ajuda na comunicação entre diferentes áreas do cérebro — concluiu.