As ofensas contra nordestinos registradas em um grupo de WhatsApp de moradores de um condomínio residencial no município de Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza, não são um episódio isolado. Após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no último domingo (25), a população do Nordeste voltou a ser alvo de uma onda de ataques e manifestações discriminatórias nas redes sociais. Levantamento da Ativaweb DataLab identificou aproximadamente 14,7 milhões de menções críticas à região entre a noite da eleição e as 16 horas desta quarta-feira (28), muitas delas com conteúdo ofensivo e preconceituoso.
O estudo revela que o Nordeste foi mencionado 18.567.871 vezes nas plataformas digitais durante o período analisado. Desse total, 79,3% das manifestações foram classificadas como críticas à região, enquanto apenas 20,7% apresentaram conteúdo de defesa dos nordestinos. O assunto ganha destaque, nesta quinta-feira (29), no Jornal Alerta Geral, no comentário do jornalista Luzenor de Oliveira que chama de sacanagem que faz esse tipo de discriminação e ameaça demitir funcionários por questões de opção de voto.
O volume de mensagens chama atenção pela intensidade da reação ao resultado das urnas, especialmente porque Lula conquistou no Nordeste sua maior votação proporcional.
MP INVESTIGA XENOFOBIA EM CONDOMÍNIO DO EUSÉBIO
No Ceará, um dos episódios que ganharam repercussão ocorreu em um condomínio residencial de Eusébio, onde dois moradores teriam publicado mensagens discriminatórias contra nordestinos em um grupo de WhatsApp, no domingo do segundo turno.
Diante das informações recebidas, o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), por meio da 2ª Promotoria de Justiça de Eusébio, anunciou, nesta quarta-feira (28), a abertura de procedimento para apurar a possível prática de crime de xenofobia.
A Promotoria solicitou o comparecimento dos dois moradores envolvidos para prestar esclarecimentos e determinou que a administração do condomínio encaminhe informações necessárias à investigação.
O caso é um exemplo das manifestações de hostilidade regional que se intensificaram nas redes sociais depois da divulgação do resultado da eleição presidencial.
OFENSAS ASSOCIAM NORDESTINOS À MISÉRIA E QUESTIONAM SUA INTELIGÊNCIA
De acordo com a Ativaweb DataLab, as manifestações identificadas no levantamento ultrapassaram, em muitos casos, os limites da crítica política.
A análise encontrou mensagens que associam os nordestinos à pobreza e à dependência econômica, questionam sua capacidade intelectual e utilizam expressões desumanizantes para atacar a população da região.
Também foram identificadas publicações defendendo a separação do Nordeste do restante do território brasileiro.
“A crítica não ficou no campo do debate político. Ela desencadeou um vocabulário ofensivo que atinge o povo nordestino como grupo”, registra o estudo.
Segundo os pesquisadores, as mensagens tiveram alcance nacional, com participação de usuários de todas as regiões do País e presença expressiva de perfis do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
MAIS DE 41,7 MILHÕES DE MENÇÕES CRÍTICAS NOS DOIS TURNOS
O levantamento mostra que o fenômeno já havia sido registrado após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro.
Naquela ocasião, foram contabilizadas aproximadamente 32,8 milhões de menções relacionadas ao voto nordestino nas primeiras 72 horas após a eleição. Desse total, cerca de 27 milhões, equivalentes a 82%, foram classificadas como críticas à região.
No segundo turno, o volume total de menções caiu aproximadamente 43%, mas o percentual de manifestações críticas permaneceu elevado, passando de 82% para 79,3%.
Somados os dois períodos eleitorais, o estudo identificou números expressivos:
- 51.446.082 menções relacionadas ao Nordeste e ao comportamento eleitoral de sua população.
- 41.750.211 manifestações classificadas como críticas à região.
- 14,7 milhões de menções críticas registradas somente após o segundo turno.
- 79,3% de conteúdo crítico no período posterior à reeleição de Lula.
Os dados de classificação de sentimento não significam que todas as menções críticas constituam crimes ou contenham ofensas discriminatórias. O estudo, entretanto, identificou manifestações explícitas de preconceito entre as publicações analisadas.
HOMENS SÃO MAIORIA ENTRE OS PERFIS IDENTIFICADOS
A pesquisa também analisou o perfil dos responsáveis pelas manifestações críticas nas plataformas digitais.
Segundo o levantamento, 52,3% dos perfis foram identificados como masculinos, 24,5% como femininos e 23,2% não tiveram identificação possível.
Para os pesquisadores, os dados indicam uma predominância masculina nas manifestações críticas ao Nordeste, comportamento que a análise associa a padrões observados em estudos sobre agressividade e confronto político nas redes sociais.
O monitoramento reuniu publicações, comentários, links e compartilhamentos no Facebook, Instagram, TikTok, X, YouTube e Kwai.
PRECONCEITO REGIONAL PODE RESULTAR EM PUNIÇÃO CRIMINAL
As agressões contra nordestinos por sua origem regional podem configurar crimes previstos na legislação brasileira, dependendo do conteúdo e das circunstâncias das manifestações.
A Lei nº 7.716/1989 pune condutas de discriminação e incitação ao preconceito relacionadas, entre outros fatores, à procedência nacional. A divulgação de conteúdo discriminatório pela internet também pode gerar responsabilização criminal.
A Constituição garante a liberdade de expressão e de manifestação política, mas essas garantias não autorizam ataques discriminatórios contra pessoas ou grupos em razão de sua origem.