Endividamento dos brasileiros bate recorde e ultrapassa 50% da renda das famílias; pagamento de dívidas consome 29% do orçamento mensal

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O endividamento das famílias brasileiras atingiu o maior nível da série histórica do Banco Central (BC) e chegou a 50,1% da renda anual em agosto de 2026. Os dados, divulgados nesta quinta-feira (29), revelam o agravamento da situação financeira dos brasileiros, que também passaram a comprometer uma parcela recorde do orçamento mensal com o pagamento de empréstimos, financiamentos e dívidas no cartão de crédito.

O índice de endividamento avançou 0,2 ponto percentual em relação a julho, quando estava em 49,9%. O resultado significa que o estoque das dívidas das famílias junto ao sistema financeiro já corresponde a mais da metade da renda que elas recebem ao longo de um ano.

O levantamento faz parte das Estatísticas Monetárias e de Crédito do Banco Central e considera obrigações financeiras como empréstimos pessoais, crédito consignado, financiamentos e operações com cartões de crédito.

FAMÍLIAS GASTAM 29% DA RENDA MENSAL COM DÍVIDAS

Outro indicador que preocupa é o comprometimento mensal da renda com o pagamento das dívidas.

Segundo o Banco Central, esse percentual passou de 28,8% em julho para 29% em agosto, alcançando o maior patamar da série histórica iniciada em março de 2011.

Na prática, isso significa que, de cada R$ 1.000 recebidos mensalmente pelas famílias, R$ 290 são destinados, em média, ao pagamento de parcelas de dívidas com o sistema financeiro.

O avanço reduz a parcela do orçamento disponível para despesas essenciais, como alimentação, moradia, transporte, saúde e educação.

EVOLUÇÃO DO ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS BRASILEIRAS

Período Endividamento em relação à renda anual Renda mensal comprometida com dívidas
Dezembro de 2023 47,7% Não informado
Julho de 2026 49,9% 28,8%
Agosto de 2026 50,1% 29,0%

Principais números:

  • 2,4 pontos percentuais: crescimento do endividamento entre dezembro de 2023 e agosto de 2026.
  • 0,2 ponto percentual: aumento do endividamento somente entre julho e agosto.
  • 29%: parcela da renda mensal comprometida com o pagamento de dívidas, recorde da série histórica.
  • 50,1%: relação entre o estoque das dívidas das famílias e a renda anual, também em nível recorde.

Fonte: Banco Central — Estatísticas Monetárias e de Crédito, conforme os dados divulgados no levantamento de agosto de 2026.

JUROS ALTOS AUMENTAM PRESSÃO SOBRE ORÇAMENTO FAMILIAR

O endividamento das famílias brasileiras voltou a crescer depois de apresentar redução no início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em dezembro de 2023, primeiro ano do governo, o indicador havia recuado para 47,7%. Naquele período, a administração federal lançou a primeira edição do programa Desenrola Brasil, que permitiu a renegociação de dívidas de consumidores.

A partir de setembro de 2024, entretanto, o Banco Central iniciou um novo ciclo de elevação da taxa básica de juros, a Selic, tornando o crédito mais caro.

A taxa chegou a 15% ao ano e, segundo os dados apresentados, está atualmente em 13,75%.

Os juros elevados aumentam o custo dos empréstimos e financiamentos, dificultam a renegociação de dívidas e pressionam principalmente as famílias que dependem do crédito para equilibrar o orçamento.

DESENROLA RENEGOCIOU R$ 22,4 BILHÕES, MAS ENDIVIDAMENTO CONTINUOU SUBINDO

Para tentar aliviar a situação financeira dos brasileiros, o Governo Federal lançou, em maio de 2026, uma nova versão do Desenrola, oferecendo descontos de até 90% na renegociação de dívidas de famílias com renda de até cinco salários mínimos.

O programa foi encerrado no final de agosto, com mais de R$ 22,4 bilhões em dívidas renegociadas, conforme o balanço apresentado.

Apesar da iniciativa, os indicadores do Banco Central mostram que o endividamento e o comprometimento da renda continuaram aumentando.

Em setembro, o governo anunciou uma terceira etapa do Desenrola, que prevê a compra de dívidas antigas pela União para facilitar novos acordos com consumidores inadimplentes.

A expectativa oficial é alcançar até 15 milhões de brasileiros, com o início das renegociações previsto para fevereiro de 2027.

ENDIVIDAMENTO SERÁ DESAFIO PARA O QUARTO MANDATO DE LULA

O aumento das dívidas das famílias representa um dos desafios econômicos para o próximo mandato de Lula, que começa em janeiro de 2027.

Mesmo com as medidas de renegociação adotadas pelo governo, o peso dos empréstimos, financiamentos e cartões de crédito continua crescendo sobre a renda dos brasileiros.