Dois deputados reeleitos pelo MDB no Ceará entraram na mira do Ministério Público Eleitoral (MPE) por suspeitas de irregularidades durante a campanha de 2026. O órgão pediu, nessa segunda-feira (2), a cassação dos diplomas e a anulação dos votos do deputado federal Yury do Paredão e do deputado estadual Davi de Raimundão, acusados de abuso de poder econômico e utilização eleitoral de serviços de saúde na região do Cariri.
O pedido do MPE será apreciado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), que receberá, também, defesas de Yuri e Davi. Se o TRE acatar o pedido do MPE, o caso pode ser levado ao TSE.
REELEIÇÃO
A votação de Yuri e Davi superou todas as estimativas dos bastidores políticos. Os dois parlamentares conquistaram a reeleição em outubro. Yury do Paredão recebeu 261.291 votos para a Câmara dos Deputados, enquanto Davi de Raimundão obteve 95.814 votos para a Assembleia Legislativa do Ceará. A votação de Yuri proporcionou ao MDB eleger à Câmara Federal o ex-prefeito de Novo Oriente, Neném Coelho.
ANULAÇÃO DE VOTOS
Além da cassação e da anulação dos votos, o Ministério Público Eleitoral solicita a declaração de inelegibilidade por oito anos para os dois deputados e outros três investigados, entre eles o ex-prefeito de Juazeiro do Norte Raimundo de Macedo, conhecido como Raimundão, pai do deputado estadual Davi de Raimundão.
Se anulados os votos, o TSE determina uma retotalização de votos, o que tiraria as vagas de Yuri e Neném. As duas vagas seriam redistribuídas para outros partidos, beneficiando, provavelmente, o PSB e o PSD. Em 2026, o TSE anulou os votos atribuídos ao então candidato Heitor Freire (União Brasil), o que tirou o mandato da deputada Daynny do Capitão e levou Priscila Costa (PL) a garantir uma vaga na Câmara Federal.
Ministério Público aponta uso eleitoral de serviços de saúde no Cariri
A investigação envolve a suspeita de utilização de atendimentos médicos gratuitos como instrumento de favorecimento eleitoral.
Segundo o MPE, o grupo teria participado de um esquema envolvendo a unidade móvel de saúde denominada “Carreta Conectados pela Cura”, vinculada ao Hospital e Maternidade São Vicente de Paulo, em Barbalha, e atividades do Instituto Dra. Yanny Brena.
De acordo com a denúncia, a carreta, que oferece consultas e exames gratuitos por meio de convênio com o Sistema Único de Saúde (SUS), teria concentrado seus atendimentos em Juazeiro do Norte durante o ano eleitoral.
O Ministério Público sustenta que esses serviços foram realizados sem observar a regulação oficial do SUS, enquanto milhares de pacientes permaneciam na fila de espera por consultas e exames.
A suspeita é de que a oferta de atendimentos médicos tenha sido utilizada para aproximar eleitores das candidaturas de Yury do Paredão e Davi de Raimundão.
Emendas parlamentares destinadas à saúde estão sob investigação
Outro ponto central da denúncia envolve a destinação de recursos públicos para o financiamento dos serviços de saúde.
Segundo o Ministério Público Eleitoral, a unidade móvel teria recebido pelo menos R$ 1,25 milhão em emendas parlamentares individuais de Yury do Paredão, além de recursos provenientes de emendas de comissão articuladas pelo deputado.
O órgão também aponta que o Instituto Dra. Yanny Brena, presidido por Márcia Araújo, mãe de Yury, recebeu destaque nas ações da carreta, embora, conforme a denúncia, não existisse contrato formal com o hospital nem participação financeira da entidade no custeio dos exames.
O MPE relata ainda que, em novembro de 2025, Yury anunciou R$ 3 milhões para a realização de mamografias no hospital, com participação do instituto.
Em 2026, o hospital teria firmado novos convênios envolvendo emendas parlamentares de R$ 2 milhões e R$ 3,1 milhões. Segundo a investigação, os documentos foram assinados um dia após o lançamento da aliança eleitoral entre Yury e Davi.
Para o Ministério Público, o conjunto dessas circunstâncias aponta possíveis irregularidades no direcionamento de serviços públicos de saúde em benefício das candidaturas.
Cassação poderá mudar bancadas na Câmara e na Assembleia
Se o Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE) acolher os pedidos do Ministério Público, a anulação dos votos poderá provocar uma nova totalização dos resultados das eleições de 2026.
Nesse cenário, será necessário recalcular os quocientes eleitoral e partidário e a distribuição das vagas conquistadas pelas legendas na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa.
A mudança poderá beneficiar candidatos que não conseguiram se eleger em outubro, dependendo dos novos cálculos e da situação jurídica do processo.
O Ministério Público também pediu, especificamente em relação a Yury do Paredão, a possibilidade de aplicação de multa de até 100 mil Unidades Fiscais de Referência (Ufir), conforme o enquadramento legal das irregularidades investigadas.
Yury defende parceria com instituto; Davi nega irregularidades
Em nota, Yury do Paredão afirmou que mantém uma relação de parceria e respeito com o Instituto Dra. Yanny Brena, apoiando iniciativas sociais desenvolvidas pela entidade.
O deputado ressaltou que o incentivo a instituições que oferecem serviços à população faz parte de sua atuação parlamentar.
Segundo Yury, apoiar organizações comprometidas com o atendimento à comunidade contribui para ampliar o acesso a serviços essenciais e melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Na manifestação apresentada, entretanto, o parlamentar não respondeu individualmente às irregularidades descritas pelo Ministério Público Eleitoral.
Já Davi de Raimundão informou que ainda não havia sido notificado oficialmente pela Justiça Eleitoral e que analisará a ação com sua equipe jurídica assim que tiver acesso ao processo.
O deputado estadual declarou estar convicto de que sua campanha respeitou a legislação. “Tenho a plena convicção que nossa campanha está isenta de qualquer prática não permitida pela Justiça Eleitoral, e confiamos nela”, afirmou Davi.