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A cidade de Mariana, em Minas Gerais, que vive uma crise econômica decorrente da tragédia da mineradora Samarco, ocorrida em novembro de 2015, terá apoio de órgãos do governo estadual para atrair novas empresas e reduzir sua dependência financeira das atividades de mineração. O prefeito do município, Duarte Júnior, assinou hoje (2), em Belo Horizonte, um convênio para a construção de um distrito industrial.

A estimativa inicial é que o investimento seja de aproximadamente R$ 20 milhões. Os recursos serão fornecidos pela Fundação Renova, que foi criada e é mantida pela Samarco para gerir as ações de recuperação da área afetada pela tragédia.

O convênio conta com a participação do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), que irá administrar a verba, e do Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (Indi), que será responsável por buscar empresas interessadas em se instalar em Mariana. O terreno onde será criado o distrito industrial já foi cedido pela prefeitura da cidade.

Mariana enfrenta dificuldades financeiras  por influência tanto da crise econômica nacional como da paralisação das atividades da Samarco, que interrompeu uma cadeia de negócios na cidade. A mineradora não produz desde que teve suas licenças suspensas, após o rompimento da barragem de Fundão, que liberou no ambiente mais de 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos.

Além de devastar a vegetação nativa, a lama poluiu a bacia do Rio Doce, destruiu comunidades e provocou a morte de 19 pessoas. O episódio é considerado a maior tragédia ambiental do país. A Samarco espera voltar a operar no segundo semestre deste ano.

O prefeito Duarte Júnior alega que, atualmente, a cada duas pessoas em condições de trabalhar no município, uma está desempregada. Hoje, a agência do Sistema Nacional de Emprego (Sine), em Mariana, estava recolhendo currículos a pedido da empreiteira Milplan, que realizará obras para a Samarco. A Vale anunciou a abertura de 50 postos de trabalho. Pela manhã, foi registrada uma fila de aproximadamente 800 interessados nas vagas. “O nosso 1º de maio foi marcado por várias pessoas indo dormir na fila atrás de uma oportunidade de emprego”, disse Duarte Júnior, no Dia do Trabalho, comemorado ontem.

O compromisso de estimular a diversificação econômica de Mariana foi assumido pela Samarco e é uma das medidas compensatórias da tragédia incluídas no acordo assinado em março de 2016 entre a mineradora, as acionistas Vale e BHP Billiton, o governo federal e os governos de Minas Gerais e Espírito Santo. Neste mesmo acordo, a empresa também concordou em criar a Fundação Renova para gerir os programas a serem desenvolvidos em toda a área afetada.

Segundo a Prefeitura de Mariana, 89% da arrecadação do município está vinculada à mineração. O prefeito Duarte Júnior espera que, a partir do distrito industrial, sua gestão consiga reduzir esse percentual em 20%. “Sabemos que é uma meta ousada, mas vamos trabalhar muito pelos próximos quatro anos.”

A presidente do Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (INDI), Cristiane Amaral Serpa, afirmou que já tem negociações em curso com algumas empresas, mas não revelou quais seriam.

Cristiane disse que a ideia é atrair uma empresa âncora que tenha capacidade de trazer outros fornecedores e possíveis clientes para a região. “A própria Samarco é um exemplo disso. Por que ela tem grande participação na arrecadação do município? Porque não só ela contribui, como também todas as outras empresas que a atendem”, afirmou.

Para o presidente do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, Marco Aurélio Crocco, o distrito industrial deverá se constituir a partir do potencial da região. “Você tem a Universidade Federal de Ouro Preto, que também tem campus em Mariana, com uma diversidade de expertises. É uma instituição que produz conhecimento, que produz patentes, e você pode tentar um diálogo com estes setores. Também podemos observar as tradições locais, como, por exemplo, fábricas de alumínio, que hoje estão fechadas e podem ser reabertas”, ressaltou.

Segundo Crocco, o projeto de Mariana deverá servir como exemplo para outros similares no futuro, beneficiando mais cidades. “Infelizmente, estamos fazendo isso em decorrência da tragédia. Eu gostaria muito que já estivéssemos lançando um fundo para que todos os municípios monoprodutores de Minas Gerais pudessem ter estratégias para diversificar suas receitas. Não apenas cidades dependentes da mineração, mas qualquer cidade que dependa de um único segmento econômico”, disse.

Sonho

O prefeito Duarte Júnior destacou que a celebração do convênio foi a concretização de um sonho. Nascido em Mariana, ele garante que a diversificação econômica é um desejo antigo e assunto entre seus conterrâneos desde que ainda era criança. “Isso sempre foi falado, mas nunca saiu do papel. Às vezes aparecia como tema de campanha eleitoral, até pelo desejo da população, mas não acontecia. Foi preciso uma tragédia como essa para que tivéssemos a ciência de que algo deveria acontecer de verdade”. Duarte Júnior considera que, no passado, o município se acomodou e se despreocupou, porque recebia muitos recursos da mineração.

O prefeito disse que antes da tragédia a prefeitura já havia definido o terreno e elaborado o primeiro projeto para a criação do distrito industrial. “Era um desejo nosso, mas com todas as dificuldades, não tínhamos de fato condições financeiras para que isso fosse adiante.”

Pequeno empresário

O BDMG, o Indi e a Fundação Renova também assinaram um segundo convênio que prevê a criação de um fundo para oferecer empréstimos em condições favoráveis a comerciantes e pequenos empresários de todos os municípios mineiros que foram impactados pela tragédia. “O objetivo é garantir capital de giro para os pequenos negócios na região atingida”, disse o diretor de programas da Fundação Renova, Marcelo Figueiredo.

As estimativas iniciais apontam para um aporte de R$ 100 milhões, também pela Fundação Renova. Segundo o presidente do BDMG, haverá uma nova reunião em 60 dias para que se formalize o início da operação do fundo. “Os comerciantes que obterem os empréstimos terão prazos e carências melhores que as linhas tradicionais do mercado financeiro”, afirmou o presidente do banco.