Alta de burnout faz país avaliar jornada menor de trabalho; proposta surge diante de milhões de faltas ligadas ao esgotamento no serviço

Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil

Na Noruega, a ideia de jornada de trabalho nem sempre corresponde ao que está no papel. Embora a legislação determine 40 horas semanais, o dia a dia profissional segue outro ritmo: muitos trabalhadores encerram suas atividades ainda durante a tarde, e a carga efetiva costuma ficar em torno de 33 horas por semana, com saídas frequentes por volta das 16h.

Esse distanciamento entre regra e prática ajuda a explicar por que o país entrou no radar de iniciativas que buscam redesenhar o modelo tradicional de trabalho. Entre elas, está a proposta da semana profissional de quatro dias, pensada como uma forma de reduzir a carga horária sem comprometer resultados. A modalidade trabalhista caracteriza uma resposta a problemas crescentes, como o absenteísmo e os efeitos do trabalho na saúde mental.

Números recentes reforçam esse cenário. Segundo dados da organização “4 Day Week Global”, a cada trimestre, cerca de 2,2 milhões de dias de trabalho deixam de ser cumpridos, e aproximadamente um quarto dessas ausências está ligado a esgotamento, burnout e outras condições associadas ao ambiente profissional. Ao mesmo tempo, 27% dos trabalhadores afirmam considerar abandonar seus empregos para dar mais espaço à vida pessoal.

Diante desse contexto, a entidade lançou um teste prático na Noruega e na Suécia. O projeto, com duração de seis meses e início no fim de 2025, segue até o próximo verão europeu e propõe uma mudança direta na rotina: antecipar o início do fim de semana para a tarde de quinta-feira, avaliando como isso impacta produtividade e bem-estar.

MODELO DE TRABALHO

A experiência adota o modelo 100-80-100, no qual os trabalhadores recebem 100% do salário, cumprem 80% da jornada e mantêm 100% da produtividade. Em um país onde jornadas mais curtas já fazem parte da cultura, a expectativa é de que os resultados sejam positivos. Caso isso se confirme, a semana de quatro dias pode avançar de proposta experimental para uma transformação concreta nas relações de trabalho.

No Brasil, a discussão segue um caminho diferente, mas igualmente intenso. A redução da jornada de trabalho ganhou força com o debate sobre o fim da escala 6×1, impulsionado por mobilizações populares e pela repercussão nas redes sociais. O tema passou a integrar a agenda política nacional, com propostas que defendem a diminuição da carga semanal sem redução salarial e a adoção de modelos mais equilibrados, como o 5×2.