Os ataques de deputados estaduais eleitos pelo PL à Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), por meio das redes sociais, antecipam um cenário de tensão política e representam um desafio para a Mesa Diretora da Casa a partir de 2027.
As manifestações de Tancredo Santos e Abreu Júnior, marcadas por críticas contundentes e acusações contestadas por parlamentares, sinalizam que o Legislativo poderá enfrentar discursos inflamados, confrontos e hostilidades.
O caso de maior repercussão envolve o vereador de Caucaia e deputado estadual eleito Tancredo Santos (PL), que utilizou suas redes sociais para acusar o presidente da Assembleia Legislativa, Romeu Aldigueri (PSB), de suposta falsificação de assinaturas de parlamentares em projetos de concessão de títulos de cidadania cearense.
Com uma tesoura na mão para contextualizar o corte e a montagem de nomes que teriam sido incluídos na assinatura de um projeto de lei para homenagear o deputado federal André Janones (REDE) e o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), Tancredo faz referências aos nomes dos deputados Fernando Hugo, Jeová Mota e Antonio Granja que teriam tido as assinaturas falsificadas.
As acusações, rejeitadas pela Procuradoria-Geral da Alece, provocaram manifestações de solidariedade ao presidente e de defesa da credibilidade institucional do Parlamento.
Os conteúdos e os ataques virtuais sinalizam o desafio que a futura composição da Assembleia poderá enfrentar diante de parlamentares que conquistaram projeção política nas redes sociais e utilizam vídeos de forte apelo para questionar adversários e instituições.
ALERTA AOS NOVOS DEPUTADOS
Uma das primeiras manifestações em defesa de Romeu Aldigueri partiu do deputado estadual Heitor Férrer (PSDB), que integrou a aliança eleitoral com o PL, mas não conseguiu se reeleger.
Ao manifestar indignação com as acusações, Férrer fez um alerta aos novos parlamentares sobre a responsabilidade exigida pelo exercício do mandato.
“Ao Poder Legislativo e ao presidente Romeu Aldigueri a minha solidariedade. E que essas coisas fiquem de exemplo aos recém-eleitos deputados: a Assembleia é padrão de transparência e equilíbrio. O Plenário é feito para discussões e discordâncias sempre pensando no povo do Ceará, jamais para agressões gratuitas e levianas”, afirmou Férrer, ao se referir à acusação sobre suposta falsificação de assinaturas.
Para Heitor Férrer, uma acusação dessa gravidade não atinge apenas o presidente da Assembleia, mas compromete também a imagem da própria instituição.
“Quem exerce ou pretende exercer um mandato parlamentar precisa compreender a responsabilidade das suas palavras. Denúncias devem ser apuradas, mas acusações precisam estar fundamentadas em provas”, alertou Heitor Férrer.
“ESPETÁCULO VERGONHOSO”
O primeiro-secretário da Mesa Diretora, deputado estadual De Assis Diniz (PT), classificou como “espetáculo vergonhoso” um vídeo divulgado peplo deputado estadual eleito Abreu Júnior com críticas ao aprovação da mensagem do Executivo Estadual que autoriza o Governo do Ceará a destinar R$ 2,5 milhões à escola de samba Unidos da Tijuca.
Abreu mostra o contraste: enquanto as filas de atendimento no Hospital Geral de Fortaleza (HGF) crescem, o Governo libera o dinheiro para a escola de samba carioca apresentará, no Carnaval de 2027, que apresentará um enredo inspirado no livro A Cabeça do Santo, da escritora cearense Socorro Acioli.
Para De Assis Diniz, a forma como as críticas foram apresentadas representa uma agressão à instituição e aos parlamentares.
“Isso é muito grave. Uma agressão a todos os demais parlamentares e à boa fé e à inteligência da população. Uma falta de respeito injustificável. Por isso, na condição de 1º secretário, minha total e irrestrita solidariedade ao presidente Romeu Aldigueri. Nossa Assembleia foi insultada de forma inaceitável e não podemos ficar calados, em nome da honra, da dignidade e da democracia”, declarou.
Sobre a acusação de fraude nas assinaturas, De Assis atribuiu os questionamentos à “ignorância, desconhecimento, má fé e estupidez”.
O parlamentar explicou que os procedimentos para formalização das proposições seguem normas internas da Assembleia e citou a Resolução nº 702, de 2019, aprovada durante a gestão do então presidente José Sarto, que estabeleceu regras para a validade jurídica de documentos digitais produzidos ou utilizados pelo Legislativo.
De Assis também ressaltou que a Casa dispõe de mecanismos institucionais de fiscalização, como a Procuradoria, a Ouvidoria e o Conselho de Ética.
LARISSA GASPAR REJEITA ACUSAÇÕES E CRITICA BUSCA POR REPERCUSSÃO NAS REDES
A deputada estadual Larissa Gaspar (PT) também condenou as declarações de Tancredo Santos e Abreu Júnior, defendeu o direito de fiscalização e de crítica, mas afirmou que esse direito não autoriza a apresentação de acusações sem provas nem manifestações que desrespeitem a instituição.
“Chamar a Assembleia de ‘cabaré’, dizer que ‘ali se faz farra com dinheiro público’, insinuar ‘fraude na assinatura de deputados’ não é fiscalização, é irresponsabilidade e vontade de lacrar nas redes”, afirmou Larissa.
RENATO ROSENO VÊ ESTRATÉGIA DE INFLUENCIADORES POLÍTICOS
O deputado estadual Renato Roseno (Psol) relacionou o comportamento dos parlamentares eleitos a uma estratégia de comunicação política que ganhou força nas redes sociais.
Segundo Roseno, determinados representantes da extrema direita brasileira construíram sua popularidade como influenciadores digitais e passaram a utilizar vídeos de grande repercussão para manter a mobilização de seus seguidores.
Na avaliação do parlamentar, essa forma de atuação pode estimular a divulgação de acusações sem a necessária apuração dos fatos.
“Aparecem sempre como se fossem heróis solitários de alguma causa e, em geral, expõem denúncias que nem sempre são verdadeiras, caluniam as pessoas, querem intimidar, injuriar, jogam ao vento palavras sem qualquer tipo de enraizamento, sem qualquer tipo de verificação. Uma boa ação parlamentar não pode ser feita assim”, criticou.
Roseno também prestou solidariedade aos servidores da Assembleia Legislativa, destacando que as acusações atingem profissionais responsáveis pelo funcionamento administrativo e legislativo da instituição. “Não foi só o Poder que foi atacado”, observou. A reação institucional ganhou maior dimensão com a manifestação da Procuradoria-Geral da Assembleia Legislativa.
ROMEU ALDIGUERI RECEBE SOLIDARIEDADE DE PARLAMENTARES DE DIFERENTES PARTIDOS
O presidente da Mesa Diretora, Romeu Aldigueri, que conta com apoio político para continuar no comando do Legislativo no biênio 2027-2028, optou, até a manhã deste sábado (07), por não responder diretamente às acusações por meio de uma nota pessoal.
Em vez disso, divulgou manifestações de solidariedade de parlamentares que saíram em defesa da Assembleia Legislativa. A relação reúne deputados de diferentes partidos, entre eles:
- Fernando Hugo (Republicanos)
- Marcos Sobreira (PSB)
- Jeová Mota (PSB)
- De Assis Diniz (PT)
- Heitor Férrer (PSDB)
- Fernando Santana (PT)
- Larissa Gaspar (PT)
- Guilherme Bismarck (PSB)
- Danniel Oliveira (MDB)
- Guilherme Sampaio (PT)
- Missias Dias (PT)
- Renato Roseno (Psol)
- Simão Pedro (PSD)
- David Durand (Republicanos)
- Tomaz Holanda (Mobiliza)
- Agenor Neto (MDB)
- Moisés Braz (PT)
- Salmito Filho (PSB)
- Nizo Costa (PT)
- Guilherme Landim (PSB)
- Leo Suricate (Psol)
- Julio Cesar Filho (PT)
- Jô Farias (PT)
- Davi de Raimundão (MDB)
- Cláudio Pinho (PSDB)
NOVO CENÁRIO POLÍTICO PODE AMPLIAR TENSÕES NO LEGISLATIVO
A repercussão das críticas de Abreu e Tancredo antecipa um dos desafios que a Mesa Diretora poderá enfrentar na próxima legislatura: administrar as divergências de um Parlamento que receberá novos representantes com forte presença nas redes sociais e disposição para confrontos políticos.
Nesse cenário, a presidência da Assembleia terá de conciliar o direito à divergência, a liberdade de manifestação e a preservação do ambiente institucional necessário ao debate, e à votação de projetos de interesse da população e uma agenda que antecede à corrida eleitoral de 2028.
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