A primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), aplicada em 2025, abriu um retrato ainda mais preocupante sobre a qualidade do ensino de Medicina no Brasil, especialmente no setor privado. Os dados revelam que praticamente quatro em cada dez médicos formados por faculdades particulares não alcançaram o índice mínimo de proficiência para o exercício profissional.
Do total de 24.487 concluintes de cursos privados — com ou sem fins lucrativos — que participaram da avaliação, 14.998 estudantes, o equivalente a 61,2%, não atingiram a nota mínima de proficiência estabelecida pelo exame, que é de 60 pontos em uma escala de 0 a 100. O resultado acende um alerta sobre a capacidade dessas instituições de formar profissionais preparados para atender a população.
O Enamed foi aplicado em outubro de 2025 a cerca de 39 mil formandos e teve seus resultados divulgados nesta semana pelos ministérios da Educação e da Saúde, em conjunto com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
O desempenho dos estudantes reforçou a diferença entre os setores público e privado: os melhores resultados foram registrados entre formandos de universidades estaduais e federais.
A vantagem do ensino público fica evidente também na avaliação por curso. Das 49 faculdades de Medicina que alcançaram nota máxima (conceito 5) no Enamed, 40 são instituições públicas, sendo 21 delas universidades federais. As únicas duas instituições com 100% de alunos considerados proficientes também pertencem à rede federal: a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
No extremo oposto, entre as 28 faculdades que receberam conceito 1 — o mais baixo da avaliação —, 17 são privadas e apenas uma é federal, a Universidade Federal do Pará. No total, 13.871 estudantes estão se formando em cursos que obtiveram conceitos 1 e 2, classificados pelo MEC como de desempenho “crítico” ou “insuficiente”.
O quadro é ainda mais sensível quando se observa o perfil dos formandos no país. Atualmente, a maioria dos novos médicos é oriunda de faculdades privadas. A distribuição dos concluintes avaliados pelo Enamed mostra essa predominância:
• Privadas com fins lucrativos: 15.409
• Privadas sem fins lucrativos: 9.078
• Públicas federais: 6.501
• Comunitárias/confessionais: 3.882
• Públicas estaduais: 2.402
• Instituições especiais: 1.040
