Em meio ao aumento do endividamento das famílias brasileiras, cresce a preocupação com um novo fator que vem pressionando o orçamento doméstico: os jogos on-line, conhecidos como bets.
Um estudo da FIA Business School em parceria com o Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) aponta que o vício em apostas já é a principal causa de endividamento no País, superando fatores históricos como juros elevados e acesso ao crédito.
A pesquisa, que analisou dados entre 2011 e 2025, revela que o impacto das apostas no orçamento familiar é significativamente maior. O índice associado às bets chegou a 0,2255, bem acima do peso dos juros (0,0709) e do crédito (0,0440). Na prática, o efeito das apostas é quase o dobro da soma desses dois fatores tradicionais.
Além de gerar dívidas, o fenômeno tem provocado uma mudança no destino do dinheiro das famílias. Dados da consultoria PwC mostram que, nas classes C, D e E, 76% dos gastos com lazer e até 5% dos recursos destinados à alimentação estão sendo redirecionados para plataformas de apostas.
O perfil predominante dos apostadores é formado por homens jovens, entre 18 e 30 anos, de baixa renda, sendo que 58% já possuem dívidas em atraso há mais de 90 dias.
Os impactos vão além das finanças pessoais. Um levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima que os danos associados ao jogo problemático geram um custo social de pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano.
O contraste é evidente: enquanto os prejuízos sociais crescem, o setor de apostas registrou lucro de R$ 17,4 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025. A arrecadação do governo também aumentou, saltando de R$ 38 milhões em 2024 para R$ 6,8 bilhões em 2025, mas apenas 1% desse valor é destinado à saúde pública.
O avanço das bets também tem impactado o comércio e a economia local. Levantamento do Instituto de Economia Maurílio Biagi (IEMB-Acirp) aponta que despesas essenciais, como alimentação e vestuário, vêm sendo substituídas por gastos com apostas, aumentando a inadimplência e reduzindo o consumo.
Com a legalização das apostas esportivas em 2018 e a expansão acelerada a partir de 2019, o número de usuários disparou. Estima-se que 39,5 milhões de brasileiros apostaram no último ano, sendo que 19% comprometeram a renda e 17% deixaram de pagar contas básicas para jogar.
Para especialistas, o problema é agravado por uma combinação perigosa de fatores: falta de educação financeira, facilidade de acesso, marketing agressivo e a falsa percepção de ganho fácil.
“No longo prazo, a lógica do jogo sempre favorece a casa. O problema é que o apostador acredita que pode recuperar perdas, e a conta simplesmente não fecha”, alerta o economista Sidney Proença.
