Brasil envelhece rápido, mas esbarra em gargalos na Previdência, na saúde e na proteção social

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O Brasil vive uma profunda transformação demográfica que tende a alterar de forma estrutural o funcionamento da economia, do Estado e da sociedade.

Com 34,1 milhões de idosos em 2024, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país mais que dobrou o contingente de pessoas com 60 anos ou mais nas últimas duas décadas e assiste, em ritmo acelerado, à inversão da pirâmide etária.

O envelhecimento da população, no entanto, expõe fragilidades de um país que ainda não conseguiu se preparar para garantir dignidade, infraestrutura e proteção social a essa parcela crescente da população.

DESAFIO NA PREVIDÊNCIA

Para o economista Enio Botelho, professor de geografia do Colégio Militar de Brasília, o aumento da expectativa de vida combinado à queda nas taxas de natalidade e fecundidade cria um desafio imediato para o Estado, sobretudo no financiamento das aposentadorias.

“Com menos jovens entrando no mercado de trabalho e mais pessoas vivendo por mais tempo, o modelo atual se torna insustentável. O Estado não vai conseguir sustentar a Previdência se essa tendência continuar, e o rombo previdenciário tende a se agravar”, alerta.

GRANDE GARGALO

O sistema previdenciário aparece como um dos maiores gargalos desse novo cenário. Botelho e o economista e educador financeiro Sidney Proença, da Firece, avaliam que a reforma da Previdência de 2019 — que instituiu idade mínima de 62 anos para mulheres e 65 para homens e alterou o cálculo dos benefícios — foi relevante para conter gastos no curto e médio prazos, mas não resolveu o problema estrutural.

Segundo Proença, o regime de repartição, no qual trabalhadores ativos financiam os benefícios dos aposentados, torna-se cada vez mais pressionado. “A base de contribuintes encolhe enquanto o número de beneficiários cresce. A partir de 2030, o déficit tende a aumentar de forma exponencial, o que pode exigir novos ajustes antes mesmo de 2040”, projeta.

MODELOS HÍBRIDOS

Entre as alternativas debatidas, Proença defende modelos híbridos, como um piso previdenciário garantido pelo Estado aliado a contas individuais de poupança para quem tem maior renda, além do uso de lucros de estatais, como a Petrobras, para financiar aposentadorias.

O especialista ressalta, porém, que esse caminho exigiria mecanismos rigorosos de controle para evitar desvios. Já Botelho aponta como saída a adoção de impostos progressivos vinculados, incidindo sobre heranças, patrimônio, lucros e dividendos, além do combate à informalidade e à renúncia fiscal, ampliando a base de financiamento da proteção social.

SAÚDE PÚBLICA

Outro ponto crítico é a saúde pública. Com o envelhecimento da população, cresce a incidência de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, que elevam os custos do Sistema Único de Saúde (SUS). Para Proença, o risco é de sobrecarga do sistema se não houver mudança de foco. “Prevenir é muito mais barato do que tratar. Investir em atenção primária, saneamento e acompanhamento nutricional pode reduzir em até 30% as internações evitáveis. Cada R$ 1 investido nessas áreas economiza cerca de R$ 4 em tratamentos de alta complexidade no futuro”, explica.

Diante desse cenário, o Ministério da Saúde informou que prepara, para 2026, a atualização da Caderneta da Pessoa Idosa, que passará a ser distribuída também em formato físico e integrada ao aplicativo Meu SUS Digital.

A pasta destaca ainda a incorporação da Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa ao Prontuário Eletrônico, permitindo um diagnóstico mais preciso da saúde dessa população em todo o país, além da criação de indicadores específicos para monitorar e qualificar o cuidado na atenção primária.

ENVELHECIMENTO ACELERADO

O envelhecimento acelerado da população brasileira impõe, assim, um desafio que vai além da Previdência: exige políticas públicas integradas, planejamento de longo prazo e decisões estruturais para evitar que a transição demográfica aprofunde desigualdades e comprometa a sustentabilidade do Estado nas próximas décadas.

ORIENTAÇÃO: 085.9.9273.4353

Segurados e beneficiários do INSS recebem, aos sábados, a partir das 7 horas da manhã, no Jornal Alerta Geral, orientação sobre aposentadorias e auxílios. As orientações são dadas pelo professor e advogado Paulo Bacelar. As mensagens podem ser enviadas pelo WhatsApp 085.9.9273.4353.