O Ceará aparece em terceiro lugar entre os estados brasileiros com maior número de casos de violência política registrados no período de 28 de outubro de 2024 a 15 de agosto de 2026. Foram identificados 29 episódios no Estado, segundo estudo preliminar das organizações Terra de Direitos e Justiça Global. O levantamento aponta ainda que o Ceará concentra o maior número de ocorrências com indícios de envolvimento de facções criminosas ou do crime organizado.
No período analisado, o Brasil registrou 354 episódios de violência política, uma média de um caso a cada 44 horas. São Paulo aparece na primeira posição, com 67 ocorrências, seguido pelo Paraná, com 31, e pelo Ceará, com 29. Os dados fazem parte da quarta edição da pesquisa sobre Violência Política e Eleitoral no Brasil. As organizações informam que os números referentes ao período de campanha eleitoral de 2026 ainda serão divulgados posteriormente.
Ceará concentra casos ligados ao crime organizado
Um dos recortes que mais chama atenção no levantamento é a relação entre violência política e crime organizado. Dos 26 episódios registrados em todo o país com indícios de envolvimento de facções criminosas ou organizações criminosas, 12 ocorreram no Ceará. Na sequência aparecem Rio de Janeiro, com quatro casos, e São Paulo, com três.
Segundo a pesquisa, nesses episódios os principais alvos foram prefeituras e órgãos ligados às administrações municipais, como secretarias. Entre os casos citados está o município de Cariré, onde prefeito, vice-prefeito e uma vereadora foram ameaçados simultaneamente. Em Meruoca, duas autoridades da mesma gestão foram ameaçadas no mesmo dia. Já em Jaguaribara, prefeito e vice-prefeito foram ameaçados na mesma semana.
Violência fora do período eleitoral
O estudo também chama atenção para a continuidade da violência política mesmo em períodos sem eleições. Em 2025, ano sem eleições gerais ou municipais, foram registrados 225 casos em todo o país, segundo o levantamento. As organizações apontam esse como o período pré-eleitoral mais violento da série histórica.
De acordo com os dados, 96,3% das vítimas entre outubro de 2024 e agosto de 2026 já ocupavam mandatos eletivos ou cargos públicos. A política municipal concentrou 63% dos episódios, envolvendo principalmente vereadores e prefeitos.
A violência mais grave também atingiu principalmente agentes políticos locais. Dos 28 episódios classificados como de intenção letal, 24 tiveram como alvo representantes municipais. Entre os casos estão 11 assassinatos e 17 atentados registrados no período.
Mulheres são metade das vítimas
Outro dado destacado pela pesquisa é a dimensão de gênero. As mulheres foram vítimas de 50,6% dos episódios registrados, apesar de ocuparem cerca de 18% das cadeiras legislativas do país, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O levantamento mostra ainda que os tipos de violência variam de acordo com o gênero. Enquanto homens foram maioria entre as vítimas de violência física, as mulheres foram as principais vítimas de ameaças e ofensas. Foram identificados 31 casos de ameaça de violência sexual e 67 episódios com conteúdo de conotação sexual ou comentários sobre corpo e aparência, todos com mulheres como vítimas.
No Ceará, a vereadora de Fortaleza Adriana Gerônimo (PSOL) aparece entre as vítimas de uma ameaça atribuída, segundo o estudo, a grupo ou perfil declarado neonazista ou supremacista. A pesquisa relata que a ameaça fazia referência a armas e a um possível ataque contra a parlamentar e sua esposa.
Violência também ocorre dentro do ambiente político
A pesquisa identificou 64 episódios, equivalentes a 18,1% do total, nos quais o próprio agressor também exercia mandato eletivo ou ocupava cargo público. Quando são considerados policiais e outros agentes estatais, os ataques praticados por representantes do próprio Estado chegam a 29,9% dos casos.
Em 52 ocorrências, a violência aconteceu dentro do próprio ambiente de trabalho parlamentar, como plenários e sessões de comissões. Já o ambiente virtual concentrou 152 episódios, correspondentes a 42,8% do total. Em quase metade dessas ocorrências, 48%, não foi possível identificar a autoria dos ataques.
Ameaças são o tipo de violência mais frequente
Entre os 354 episódios analisados, a ameaça foi o tipo de violência mais registrado, com 193 casos. Na sequência aparecem ofensas, com 71 ocorrências; agressões físicas, com 51; atentados, com 17; assassinatos, com 11; criminalização, com seis; e invasões, com cinco.
Apesar da quantidade de ocorrências, o levantamento aponta uma baixa taxa de responsabilização. Dos 354 casos, 300, ou 84,5%, foram alvo de denúncia formal ou pública. No entanto, apenas 46 episódios, equivalentes a 13%, tinham apuração judicial ou policial em andamento. Somente nove casos, 2,5% do total, resultaram em punição efetiva dos autores, segundo as organizações.
Desde 2016, a série histórica da Terra de Direitos e da Justiça Global já contabiliza 1.937 episódios de violência política e eleitoral no país. Para elaborar o levantamento, as organizações monitoram e checam diariamente notícias nacionais e regionais, além de cruzar as informações com registros oficiais e denúncias públicas.
As organizações afirmam que os dados reforçam a necessidade de mecanismos permanentes de proteção a agentes políticos e lideranças, especialmente no âmbito municipal, e destacam que a violência política não se limita aos períodos de campanha eleitoral.