O Conselho Federal de Medicina (CFM) manifestou forte preocupação com os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, que expõem fragilidades graves na formação de futuros médicos no Brasil. De acordo com os dados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), três em cada dez estudantes concluintes de Medicina obtiveram desempenho considerado crítico ou insuficiente.
Dos 39.256 formandos avaliados, 13.871 pertencem a cursos que receberam conceitos 1 e 2 — patamares abaixo do mínimo aceitável pela própria metodologia do MEC. Na prática, isso significa que mais de 12 mil novos médicos ingressam no mercado sem comprovar competências consideradas essenciais para o exercício da profissão.
Para o presidente do CFM, José Hiran Gallo, os números confirmam um cenário que a entidade vem denunciando há anos. “Quando mais de um terço dos egressos de Medicina apresenta desempenho insuficiente segundo o próprio MEC, estamos diante de um problema estrutural gravíssimo. São milhares de profissionais que receberão diploma e registro sem demonstrar condições mínimas para atender a população. Isso é alarmante e coloca em risco a saúde e a segurança dos brasileiros”, afirmou.
Os resultados do Enamed evidenciam que a rápida expansão dos cursos de Medicina, sobretudo no setor privado, não foi acompanhada de critérios rigorosos de qualidade, infraestrutura adequada e campos de prática compatíveis. Entre as 24 faculdades que obtiveram conceito 1, considerado crítico, 17 são privadas. Já das 83 instituições que ficaram com conceito 2, 72 pertencem à rede privada. Do total de 350 cursos avaliados, apenas 49 alcançaram a nota máxima (conceito 5), sendo 84% deles de instituições públicas.
Segundo Gallo, o exame apenas torna visível uma realidade conhecida. “O Enamed cumpre um papel fundamental ao escancarar a má qualidade do ensino médico associada à abertura indiscriminada de escolas autorizadas pelo MEC. Defendemos há mais de uma década a criação de um Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed), obrigatório para a concessão do registro profissional. É dever dos Conselhos garantir que apenas médicos capacitados ingressem na profissão — algo que hoje, infelizmente, não conseguimos assegurar”, destacou.
Os dados também mostram que 107 faculdades de Medicina no país apresentam nível crítico ou insuficiente, enquanto outras 80 alcançam apenas o patamar mínimo aceitável. Em números absolutos, São Paulo lidera o ranking de cursos com notas 1 e 2, somando 23 faculdades e 3.437 concluintes nessas condições. Em seguida aparecem Bahia (12 cursos e 1.396 alunos), Minas Gerais (12 cursos e 1.307 estudantes) e Rio de Janeiro (10 cursos e 1.353 formandos).
Diante do cenário, o CFM defende que, para garantir a segurança da população, todos os cursos de Medicina em funcionamento no país deveriam alcançar, no mínimo, conceito 4 no Enamed — o que representa pelo menos 75% dos alunos com bom desempenho, segundo os critérios definidos pelo próprio MEC.
