Cientistas na França identificaram que o consumo frequente de alimentos que contêm seis conservantes amplamente utilizados pode estar associado a taxas mais altas de câncer, incluindo os de mama e próstata. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Université Sorbonne Paris Nord e da Université Paris Cité e analisou dados de mais de 105 mil pessoas ao longo de um período superior a sete anos.
Entre os conservantes avaliados, o nitrato de sódio — comum em carnes processadas como bacon e salame — foi associado a um aumento de 32% no risco de câncer de próstata. Já o sorbato de potássio, presente em doces, coberturas, carnes processadas e alguns condimentos, esteve relacionado a um aumento de 14% no risco de câncer em geral e de 26% no risco de câncer de mama.
Os pesquisadores ressaltam que não foi possível comprovar exatamente os mecanismos biológicos que explicam essa associação. No entanto, a hipótese é de que alguns desses compostos possam interferir na resposta do sistema imunológico, potencialmente favorecendo o desenvolvimento de células cancerígenas.
Apesar dos resultados, os cientistas alertam que não há motivo para pânico. Segundo eles, mais estudos são necessários antes de qualquer recomendação para que a indústria reformule o uso de conservantes nos alimentos.
“Os conservantes oferecem benefícios claros, prolongando a vida útil dos alimentos e reduzindo seus custos, o que pode ser particularmente importante para populações de baixa renda”, destacaram os autores.
Ainda assim, o grupo defende uma abordagem mais equilibrada. “O uso generalizado e frequentemente insuficientemente monitorado desses aditivos, aliado às incertezas sobre seus efeitos a longo prazo na saúde, exige maior atenção”, afirmaram.
Durante o acompanhamento, 4.226 participantes receberam diagnóstico de câncer, sendo mais de 1.200 casos de câncer de mama, cerca de 500 de próstata e 350 de cólon. Dos 17 conservantes analisados individualmente, 11 não apresentaram associação com a incidência da doença.
Além do nitrato de sódio e do sorbato de potássio, também foram ligados a maior risco de câncer os sulfitos — usados em produtos de panificação, sucos engarrafados e salsichas —, que aumentaram o risco em 12%, e os acetatos, encontrados em carnes processadas, pães e refeições prontas, associados a um aumento de 15% no risco geral de câncer e de 25% no câncer de mama.
Especialistas independentes reforçam que os resultados devem ser interpretados com cautela. Segundo Rachel Richardson, da Colaboração Cochrane, as associações encontradas são, em geral, modestas. “As margens de erro indicam que o efeito real pode ser pequeno. Em alguns casos, o aumento de risco pode ser de apenas 1%”, explicou.
O debate ganha relevância em um cenário em que o consumo de alimentos ultraprocessados cresce em diversos países. No Reino Unido, por exemplo, esses produtos representam cerca de 57% da dieta nacional, o maior índice da Europa. Especialistas em nutrição recomendam que cerca de 80% da alimentação seja composta por alimentos integrais ou minimamente processados, como carnes frescas, frutas, verduras, grãos integrais, leguminosas, nozes e queijos.
O estudo reforça a importância de escolhas alimentares mais equilibradas e do monitoramento contínuo dos efeitos dos aditivos químicos na saúde da população.
