Crise no Banco Ueno, no Paraguai, atinge brasileiros e deixa dezenas de cearenses sem acesso ao dinheiro

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A crise bancária e política que abala o Paraguai nos últimos dias também tem provocado prejuízos e preocupação entre brasileiros que vivem ou mantêm investimentos no país. Dezenas de cearenses estão entre os correntistas e investidores que enfrentam dificuldades para recuperar recursos depositados no Banco Ueno, instituição financeira digital que, segundo as informações divulgadas, teve sua liquidação determinada pelo Banco Central paraguaio.

O banco, que reunia cerca de 3 milhões de clientes, o equivalente a aproximadamente 60% da população adulta do Paraguai, entrou em crise após problemas de solvência. A situação ganhou contornos políticos com a informação de que o presidente Santiago Peña teria anunciado sua renúncia nesta quinta-feira (5), dois dias depois da intervenção na instituição financeira.

De acordo com estimativas do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, cerca de 270 mil brasileiros residem no Paraguai, país que faz fronteira com os estados de Mato Grosso do Sul e Paraná. Entre eles estão empresários, comerciantes e investidores cearenses que mantêm atividades econômicas e contas bancárias no território paraguaio.

CRISE BANCÁRIA E REPERCUSSÃO POLÍTICA

Segundo as informações apresentadas, o Banco Central do Paraguai determinou, na terça-feira (3), a liquidação do Ueno depois de identificar que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela legislação.

O desequilíbrio financeiro teria sido provocado por empréstimos concedidos a empresas ligadas ao próprio grupo controlador do banco, comprometendo os recursos da instituição e deixando milhares de clientes sem acesso ao dinheiro.

A crise também teria atingido o cenário político paraguaio. Santiago Peña, que já foi acionista de empresas vinculadas ao grupo controlador do Ueno, teria anunciado sua saída da Presidência após o avanço de um processo de impeachment na Câmara dos Deputados.

BRASILEIRO TEM MAIS DE R$ 200 MIL COMPROMETIDOS

Um dos brasileiros atingidos é o empresário Pedro Treméa, de 61 anos, proprietário de uma empresa de refrigeração em Ciudad del Este, na região da Tríplice Fronteira.

Cliente do banco desde a época em que a instituição ainda operava como Banco Visión, Treméa utilizava a conta principalmente para movimentar o capital de giro da empresa. Ele relatou que possui mais de R$ 200 mil comprometidos na crise, mas preferiu não revelar o valor exato.

No Paraguai, o Fundo de Garantia de Depósitos (FGD), mecanismo semelhante ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) brasileiro, oferece cobertura de até 228,3 milhões de guaranis por pessoa e por instituição financeira, valor equivalente a aproximadamente R$ 200 mil, conforme os dados apresentados. Os clientes com depósitos superiores a esse limite poderão depender do processo de resolução do banco para tentar recuperar a diferença.

Apesar das dificuldades, Pedro contou que a decisão de manter contas em diferentes instituições financeiras ajudou a reduzir os impactos sobre sua empresa.

“Como empresa, não colocamos todo o recurso em um único banco. No Paraguai é muito utilizado o alias (sistema de transferência instantânea similar ao Pix), e mantemos duas ou três contas em instituições diferentes para atender clientes de várias regiões, o que evitou um impacto ainda pior”, relatou.

O empresário também afirmou que todos os funcionários de sua empresa possuíam contas no Ueno, atraídos pela facilidade de abertura de contas digitais e pela oferta de cartões de crédito.

ALTA DO DÓLAR AGRAVA PREOCUPAÇÃO DOS EMPRESÁRIOS

Além das dificuldades para recuperar o dinheiro, a instabilidade financeira no Paraguai tem provocado preocupação entre empresários brasileiros que dependem de operações comerciais com os dois países.

Pedro Treméa explicou que sua empresa importa produtos do Brasil e realiza transações em dólares e reais. Segundo seu relato, em meio à especulação financeira provocada pela crise, a cotação da moeda americana saltou de 5.900 para 6.500 guaranis em apenas 24 horas.

Para os brasileiros e cearenses atingidos, a principal preocupação agora é saber quando poderão recuperar os recursos e quais serão os efeitos da crise sobre suas atividades comerciais e seus investimentos. A situação evidencia os riscos enfrentados por correntistas e empresários que mantêm valores superiores aos limites de proteção dos fundos de garantia de depósitos.