O relato da dentista Giullia Falcão, de 27 anos, exibido na noite deste domingo (23) pelo Fantástico, expõe a brutalidade da violência doméstica e as dificuldades enfrentadas por muitas mulheres para romper relacionamentos abusivos. Após sucessivas agressões físicas, psicológicas e sexuais que atribui ao marido, Giullia decidiu denunciar porque, segundo conta, passou a temer pela própria vida.
As agressões mais recentes deixaram marcas principalmente na cabeça e no rosto. O homem acusado por ela é o empresário do setor financeiro Ivo Vel Kos, de 48 anos, com quem se casou cerca de dois anos antes dos episódios denunciados.
“Com certeza, ele falava que ia me matar”, afirmou Giullia.
Segundo a dentista, o episódio mais grave ocorreu após um jantar com amigos. Ela relata que o marido demonstrava irritação durante o encontro e passou a repreendê-la na frente de outras pessoas. Na volta para casa, dentro do carro, a violência teria aumentado.
“Ele começou a me dar socos ainda dirigindo”, contou.
Giullia afirma ainda que foi ameaçada com um taser, arma de choque elétrico. Ela conseguiu sair do veículo e tentou pedir ajuda. Imagens de câmeras de segurança mostradas pela reportagem registram a jovem sentada na calçada enquanto o empresário se aproxima. Segundo a vítima, havia um segurança no local, mas ele não teria interferido.
De volta à residência, conforme o depoimento, as agressões continuaram. Giullia conta que o marido pegou um taco de beisebol e passou a persegui-la. Ao tentar se proteger, ela sofreu ferimentos na mão e conseguiu se trancar no banheiro.
“Eu falei: eu vou morrer aqui”, relatou.
A jovem conseguiu fugir durante uma distração e foi acolhida por vizinhos, que acionaram a polícia. O pai de Giullia descreveu o choque ao encontrá-la: “Não reconhecia que era minha filha”.
A dentista também denunciou episódios de violência sexual durante o casamento. Segundo ela, era obrigada a manter relações contra a própria vontade. “Eu acordava com ele em cima de mim, e essa violência sexual acontecia sempre”, afirmou.
Giullia relata ainda que sofreu violência psicológica, isolamento e humilhações. Disse que deixou de exercer a profissão durante o relacionamento e que ouvia frases como “você é uma inútil” e ordens para obedecer e permanecer calada.
Segundo seu depoimento, a primeira agressão física ocorreu apenas uma semana antes do casamento. Ela chegou a registrar boletim de ocorrência, mas acreditou que se tratava de um episódio isolado e decidiu manter a relação. As agressões, porém, teriam continuado e se tornado parte da rotina.
O caso ajuda a retratar o chamado ciclo da violência doméstica: uma sequência que costuma começar com controle, ciúmes, isolamento e humilhações, avança para agressões e, posteriormente, entra na chamada fase de “lua de mel”, quando o agressor pede perdão, promete mudar e tenta reconquistar a vítima.
Giullia afirma que tentou terminar o relacionamento diversas vezes, mas o marido insistia em procurá-la. “Ele ligava 60 vezes, ia na minha casa, mandava flores, presentes e chorava”, contou.
Dados apresentados pelo Fantástico mostram a dimensão do problema: apenas 10% das mulheres procuram ajuda na primeira semana após o início da violência. Quase metade leva de um a dez anos para denunciar, enquanto 18% demoram mais de uma década.