Descontentamento com transporte público cresce e número de passageiros cai nas grandes cidades

O aumento da insatisfação dos brasileiros com o transporte público já se reflete na queda do número de viagens diárias e de passageiros em várias cidades do país, como Fortaleza e, de forma mais expressiva, em São Paulo. Na capital paulista, a média de passageiros transportados em dias úteis caiu de 8,88 milhões em 2019 para 7,05 milhões em 2025 — uma redução de 1,83 milhão de viagens por dia, equivalente a quase 21%, mesmo após o fim das restrições da pandemia. A frota também encolheu: de 12.899 ônibus para 12.097 no mesmo período.

A Pesquisa CNT de Mobilidade Urbana mostra que a percepção negativa dobrou nos últimos anos. Em 2017, 12,4% dos entrevistados apontavam o transporte como um dos principais problemas urbanos. Em 2024, o índice subiu para 24,3%.

O preço já não é o único fator determinante na escolha do transporte. Embora o custo médio diário do mototáxi (R$ 12,42) seja superior ao do ônibus (R$ 9,75) e ao do metrô (R$ 9,55), a diferença é considerada pequena diante de critérios como tempo de deslocamento, conveniência e previsibilidade.

Mesmo com 58,5% dos entrevistados apontando o risco de acidentes como principal problema do mototáxi, muitos optam pela alternativa mais rápida. “É uma escolha difícil: chegar em casa em 30 minutos ou em duas horas”, afirmou o secretário nacional de Trânsito, Adrualdo Catão, destacando que a expansão das motocicletas tem forte componente socioeconômico.

O cenário é nacional. Entre 2013 e 2023, o transporte coletivo urbano por ônibus perdeu 44,1% da demanda, segundo a NTU. Em abril de 2025, o sistema operava com 86% da demanda registrada em 2019 e com oferta equivalente a 89% do período pré-pandemia.

Com menos passageiros para diluir custos fixos, o sistema perde eficiência. O índice de passageiros por quilômetro atingiu o menor nível desde 1995, enquanto a idade média da frota chegou a 6 anos e 5 meses, o maior patamar em três décadas. O resultado é um sistema que transporta menos pessoas, com menor produtividade e ônibus mais envelhecidos — um retrato do desafio crescente da mobilidade urbana no Brasil.