Os efeitos da jogatina on-line ultrapassaram as perdas financeiras e atingiram o sonho de um estudante de chegar à universidade. Eduardo Luvizetto, de 30 anos, foi pré-selecionado para uma bolsa integral do Programa Universidade para Todos (Prouni), no curso de Psicologia, mas teve o benefício indeferido após movimentações financeiras da mãe em plataformas de apostas serem consideradas na análise socioeconômica da família. O caso ganhou repercussão nas redes sociais e chegou ao Ministério da Educação (MEC).
Morador de Campinas, no interior de São Paulo, Luvizetto conta que tentava ingressar no ensino superior havia três anos até conseguir a pré-seleção para uma bolsa de 100% no curso de Psicologia da Universidade Paulista (Unip).
O Prouni concede bolsas integrais e parciais em instituições privadas de ensino superior. Para a bolsa de 100%, um dos requisitos é comprovar renda familiar bruta mensal por pessoa de até 1,5 salário mínimo. Para bolsas de 50%, o limite é de três salários mínimos por pessoa.
Luvizetto mora com a mãe, aposentada e beneficiária de um salário mínimo. Durante a comprovação das condições socioeconômicas, apresentou a documentação solicitada, incluindo os extratos bancários dela.
Foi justamente nesses extratos que apareceram as movimentações relacionadas às plataformas de apostas.
Segundo o estudante, a universidade considerou como renda valores que entraram na conta da mãe relacionados às bets. Luvizetto contesta o critério e argumenta que o fluxo financeiro não representa aumento efetivo da renda familiar, uma vez que parte do dinheiro voltava a ser utilizada — e perdida — nas apostas.
O estudante chegou a afirmar que até recursos de empréstimo consignado contratado pela mãe para jogar teriam entrado na avaliação. Essa informação, porém, é contestada pela Unip, que afirma que os empréstimos não foram considerados renda.
“Perdi a oportunidade por causa de jogo on-line”
O impacto emocional da decisão levou Luvizetto a expor publicamente a situação. Ele afirma que nunca realizou apostas e que inicialmente resistiu a contar a história para preservar a mãe.
“Quando recebi a reprovação, entrei em estado de choque. Não acreditava que tinha perdido a oportunidade de estudar o curso dos meus sonhos por causa de jogo on-line. Eu nunca apostei, nunca nem baixei um aplicativo. Foi um baque muito grande, fiquei muito frustrado”, relatou.
Segundo ele, a situação também teve forte impacto sobre a mãe, que teria passado a noite jogando após a notícia da perda da bolsa.
Luvizetto vive de trabalhos informais, possui registro como MEI e mantém com o irmão gêmeo a página “Vegano Periférico” no Instagram.
Caso chega ao MEC
A repercussão nas redes sociais mobilizou pessoas dispostas a ajudar a família. Segundo o estudante, uma psicóloga ofereceu atendimento à mãe e um advogado se colocou à disposição para acompanhá-lo no caso.
Luvizetto informou ainda ter sido procurado nesta sexta-feira por uma representante do Ministério da Educação e aguarda uma reunião para discutir a situação.
A intenção, segundo ele, é esclarecer os critérios utilizados na avaliação socioeconômica e identificar de quem partiu a decisão de indeferir a bolsa.
O MEC informou que a conferência dos documentos e a análise do cumprimento dos critérios de renda são de responsabilidade da instituição de ensino superior escolhida pelo estudante.
A pasta ressaltou também que cabe ao candidato fornecer corretamente as informações necessárias para que a documentação reflita a situação financeira da família.
Segundo o Ministério, a avaliação socioeconômica do grupo familiar é requisito obrigatório para a concessão da bolsa do Prouni.
Unip diz que identificou entrada constante de valores
A Universidade Paulista, por sua vez, confirmou ter identificado nos documentos “uma grande entrada de valores, de forma constante, vinculadas a jogos virtuais de apostas”.
A instituição argumenta que prêmios são considerados renda para fins tributários e que o Prouni leva em consideração a renda bruta familiar mensal por pessoa, e não as despesas ou dívidas assumidas pela família.
Sobre os empréstimos citados pelo estudante, a universidade afirma que essas entradas “não são recorrentes e não foram consideradas como renda”.
A instituição também declarou que a informação de que a mãe teria problemas relacionados ao vício em jogos não é determinante para aprovação ou reprovação no processo de concessão da bolsa.