Em meio à tragédia financeira e de saúde mental, bets avançam sobre crianças e adolescentes sob a indiferença dos Poderes Executivo e Legislativo

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O crescimento das apostas on-line entre crianças e adolescentes acende um alerta para uma crise com reflexos na saúde mental e na vida financeira de milhões de brasileiros. Levantamento da Frente Parlamentar Mista da Educação, em parceria com o Equidade.info, estima que estudantes brasileiros movimentaram mais de R$ 1 bilhão em apostas no último ano, evidenciando a dimensão do problema.

Os dados mostram que o contato com as chamadas bets começa cada vez mais cedo. Segundo a pesquisa, 9,5% das crianças de 11 anos já realizaram apostas pela internet. O percentual aumenta com a idade e chega a 40,1% entre estudantes com 18 anos ou mais, enquanto 32,3% dos jovens de 17 anos e 27,6% dos de 16 anos também afirmam já ter apostado.

O estudo aponta ainda uma expressiva diferença entre os sexos. Entre os estudantes do 3º ano do Ensino Médio, 49,7% dos meninos disseram já ter feito apostas on-line, contra 16,6% das meninas. Aos 15 anos, o percentual de meninos que apostam (33,3%) já supera o de mulheres com 18 anos ou mais (24,6%).

Outro dado preocupante é que muitos adolescentes sequer sabem o tamanho do prejuízo provocado pelas apostas. Entre os que jogam, 37,1% afirmaram não saber se ganharam ou perderam dinheiro. Outros 27,7% reconheceram ter perdido mais do que ganharam, enquanto 35,2% acreditam ter obtido lucro.

A pesquisa também identificou diferenças entre perfis de estudantes. Entre os evangélicos, 18,3% disseram já ter apostado; entre os católicos, o índice chega a 23,1%, e entre seguidores de outras religiões, 22,8%.

Nas escolas públicas, 40% dos entrevistados não souberam dizer se tiveram ganhos ou prejuízos com as apostas. Já nas escolas particulares, 33,2% reconheceram ter perdido mais dinheiro do que ganharam.

Para a presidente da Frente Parlamentar Mista da Educação, deputada Tabata Amaral (PSB-SP), os números mostram a urgência de medidas de proteção.

“Estamos falando de uma prática que pode comprometer a saúde financeira e o desenvolvimento de uma geração inteira. Precisamos construir políticas públicas capazes de proteger crianças e adolescentes.”

O pesquisador Guilherme Lichand, professor da Universidade de Stanford e responsável pela supervisão técnica do estudo, destaca que os dados levantam questionamentos sobre a facilidade com que menores conseguem acessar plataformas de apostas e sobre a influência da publicidade ligada ao futebol e às redes sociais.

A pesquisa ouviu 1.912 estudantes do ensino fundamental e médio em 191 escolas brasileiras, com 95% de nível de confiança e margem de erro de 2,4 pontos percentuais.