Uma nota técnica divulgada por entidades da área da oftalmologia acendeu um alerta sobre os riscos do uso indiscriminado de medicamentos à base de corticoides, tanto por via oral quanto em aplicações tópicas, como colírios.
Segundo especialistas, a utilização desses medicamentos sem acompanhamento médico pode aumentar o risco de desenvolvimento de glaucoma, doença que compromete o nervo óptico e pode levar à cegueira irreversível.
ELABORAÇÃO CONJUNTA
O documento foi elaborado pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), pela Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG) e pela Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP), sendo encaminhado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ao Ministério da Saúde e ao Congresso Nacional.
As entidades defendem medidas mais rígidas para o controle da comercialização desses medicamentos, como exigência de prescrição médica, rastreabilidade na dispensação e monitoramento periódico da pressão intraocular em pacientes que utilizam corticoides por períodos prolongados.
A nota também chama atenção para a necessidade de combate à automedicação e orienta que profissionais da saúde priorizem, sempre que possível, medicamentos de menor potência e pelo menor período necessário.
De acordo com o documento, remédios frequentemente utilizados para tratar irritações oculares, alergias e crises respiratórias podem favorecer o desenvolvimento do glaucoma quando usados sem orientação adequada.
O médico oftalmologista e presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), Roberto Murad Vessani, explica que os corticoides podem provocar aumento da pressão intraocular e danos ao nervo óptico.
“O uso indiscriminado e prolongado, seja por colírios ou medicamentos sistêmicos, também pode levar ao desenvolvimento de catarata, com comprometimento da visão tanto em adultos quanto em crianças”, afirmou Vessani.
Especialistas alertam que determinados grupos exigem acompanhamento ainda mais rigoroso, entre eles pessoas acima dos 40 anos, pacientes com pressão intraocular elevada, histórico familiar de glaucoma, portadores de alta miopia ou hipermetropia, além de afrodescendentes e pessoas com doenças como diabetes, hipertensão, hipotensão e apneia do sono. O público infantojuvenil também aparece entre os grupos que demandam maior atenção.
Segundo o diretor do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), o oftalmologista Lisandro Sakata, crianças e adolescentes estão entre os mais vulneráveis aos efeitos provocados pelos corticoides.
“Todos os indivíduos que usam corticoides têm risco de desenvolver glaucoma, mas esse risco é ainda maior entre crianças e adolescentes”, destacou.
De acordo com Sakata, em alguns casos pode ser necessária a interrupção do tratamento e a normalização da pressão ocular entre os mais jovens pode levar meses.
Por esse motivo, especialistas reforçam que o acompanhamento oftalmológico é considerado fundamental.
Segundo dados das entidades médicas, aproximadamente 1,7 milhão de brasileiros convivem atualmente com glaucoma, uma doença que apresenta como principal desafio o diagnóstico tardio, já que sua evolução costuma ocorrer de forma silenciosa.
“Muitas vezes o paciente só percebe alterações na visão quando parte do nervo óptico já foi comprometida. Nesses casos, a perda visual não pode ser recuperada, embora o tratamento possa impedir a progressão da doença”, acrescentou Sakata.
