Festas juninas começam com homenagem a Santo Antônio, o santo casamenteiro

Basta entrar o mês de junho para que os brasileiros comecem a se programar para as tradicionais festas juninas. Nesta época, os arraiás se espalham por todo o país, de norte a sul, ganhando contornos e sabores regionais. Santo Antônio é o primeiro a ser homenageado, no sábado, 13 de junho, data em que é aberta a temporada dos festejos dos santos populares, que reúne milhões de pessoas e movimenta bilhões de reais, ficando atrás apenas do Natal e do Carnaval.

São muitas as tradições ligadas ao religioso, e o “pão de Santo Antônio”, costume que vem da França do século XIX, é uma das mais populares em Portugal. O antropólogo Pedro Teotónio Pereira, diretor do Museu de Santo Antônio em Lisboa, explica à RFI que “o pão é vendido nas igrejas de Santo Antônio e deve ser guardado de um ano para o outro para que não falte alimento em casa”.

Santo Antônio, o casamenteiro, ganhou essa fama no século XVII, em Portugal, quando ajudou uma mulher a se casar com quem realmente amava, em uma época em que os matrimônios eram arranjados pelos pais.

Mas os pedidos para que Santo Antônio arranje namorados ou maridos permanecem atuais nos dois lados do Atlântico. Caso eles demorem a ser atendidos, o santo é mergulhado de cabeça para baixo na água, virado para a parede ou colocado em um poço, até que o protetor das moças encontre um amor para as donzelas, ou nem tanto assim.

Santo Antônio, ou Fernando Martins de Bulhões, nasceu em 1191, em Lisboa, em plena reconquista da Península Ibérica pelos reinos cristãos das mãos dos muçulmanos. Segundo filho de uma família burguesa, coube a Fernando escolher entre a carreira militar ou a vocação religiosa. Aos 18 anos, ele decide tomar o hábito de Cônego Regrante de Santo Agostinho e, mais tarde, segue para Coimbra, onde vive mais dez anos, aprofundando os seus estudos e conhecimentos.

Em Coimbra, ele encontra cinco frades franciscanos que iriam evangelizar o Marrocos, mas que são martirizados quando chegam ao país. Os restos mortais dos frades são enviados de volta a Coimbra, e o noviço Fernando fica tão abalado com o episódio que decide passar para a Ordem dos Franciscanos, mudando o seu nome para Antônio.

Santo Antônio tinha uma inteligência fora do comum e um conhecimento extraordinário; ele sabia a Bíblia quase de cor. Segundo Pedro Teotónio Pereira, São Francisco de Assis vai entender que é preciso alguma erudição, além de ajudar os pobres.

“Santo Antônio revela todo o seu conhecimento que tinha das Escrituras e vai ser considerado por São Francisco o primeiro teólogo franciscano”, ressalta.

O Milagre dos Peixes

À esquerda, o “Sermão dos Peixes”, o milagre mais conhecido de Santo Antônio, e à direita, ex-votos de milagres. Ambos no Museu de Santo Antônio em Lisboa.
Foto: RFI

Não se conhecem milagres de Santo Antônio em vida; só depois é que vão sendo revelados. Quando ele morreu em Arcela, nos arredores de Pádua, as crianças nas ruas intuíram e começaram a gritar: Morreu o Padre Santo! Morreu Santo Antônio!

Quando o seu corpo foi transladado para Pádua, três dias depois de sua morte, há relatos de muitos milagres, e são estes milagres que vão acompanhar o seu processo de beatificação.

“Santo Antônio distingue-se como um grande taumaturgo; ele é conhecido pela quantidade de milagres que fez. É curioso porque, no processo de beatificação de Santo Antônio, os seus milagres foram muito ligados à cura de doentes. Só mais tarde vão ser acrescentados, ao longo dos anos, outros tipos de milagres”, comenta o antropólogo.

O Sermão aos Peixes é o milagre mais famoso de Santo Antônio e acontece quando o religioso vai a Rimini, na Itália, para tentar converter os hereges. Sem sucesso, Santo Antônio anda até o mar e fala com os peixes: “vocês também são filhos de Deus e entendem o que eu tenho a dizer”. É quando peixes começam a aparecer, de cabeça de fora, mostrando atenção ao seu sermão. Isso provoca um impacto muito grande junto aos hereges que estavam assistindo à cena e, assim, Santo Antônio consegue convertê-los.