Capital Inicial: uma celebração aos bons tempos de acústicos


Tudo começou em 1989, com o primeiro unplugged (acústico) no projeto da MTV com bandas de rock nos EUA, inaugurando esse formato. Claro, tudo o que sempre foi tendência na música americana logo se tornaria um novo capítulo na nossa cultura musical nacional. A partir de então, grandes nomes do rock tiveram sua passagem por esse cenário, com apresentações e versões mais intimistas de suas obras.

O Acústico MTV se tornou um fenômeno cultural no Brasil, valorizando a versatilidade do violão e o poder da música ao vivo. Poucas bandas, no entanto, conseguiram a façanha de transformar esse momento em um segundo movimento de sucesso dentro da própria carreira como fez o Capital Inicial.

O primeiro acústico da banda (nascida no Distrito Federal) foi lançado em 2000 e é considerado um dos melhores e mais influentes registros folk do rock nacional. Liderada por Dinho Ouro Preto, a banda viu o sucesso explodir exponencialmente com esse lançamento, que se tornou um marco na história da nossa música.

Sim, um dos maiores álbuns da música nacional, listado entre os 500 discos mais importantes da história do nosso pop rock, fez com que esse projeto fosse fundamental para impulsionar a carreira do Capital Inicial, elevando a banda a um novo patamar de sucesso e reconhecimento.

O próprio Dinho define o álbum como uma reinvenção da banda e de seu estilo. Com participações como Zélia Duncan, Danny Conceição e Kiko Zambianchi, o grupo busca novamente, com quase toda a formação original, aquela atmosfera que tanto agradou ao público que assistiu e ouviu esse unplugged.

A releitura de canções da banda, assim como o lançamento de músicas que viriam a se tornar clássicos nas playlists de muitos até os dias de hoje, nos convida a revisitar — ou conhecer pela primeira vez — esse concerto que também é um verdadeiro show de rock.

Começamos com O Passageiro. Tendo como título original The Passenger, escrita por Iggy Pop, a canção ganha uma releitura suave e reflexiva, falando de liberdade e da sensação de viajar em busca do desconhecido, numa melodia discreta e vocais que transmitem calmaria.

Seguimos com O Mundo. A letra permite refletir sobre o quanto é importante viver de acordo com os próprios valores, em vez de corresponder às expectativas alheias. Uma balada rock com um leve toque sessentista à la Beatles, com vocalizações ritmadas e agradáveis de se ouvir.

Na sequência, temos Todas As Noites, que fala sobre a busca por paz e serenidade em meio ao turbilhão de pensamentos e emoções da vida moderna. Em meio a tanta inquietação, a esperança de encontrar na noite verdadeiros momentos de repouso. A música tem um ritmo de folk, fazendo você querer dançar ao som dos violões com acordes simples e cativantes.

Chegamos agora ao grande sucesso lançado na época: Tudo Que Vai. Essa bela canção, que impulsionou o acústico, fala sobre transições da vida, memórias e mudanças inevitáveis. O instrumental é suave, embora seja uma balada, com ondas sonoras e backing vocals que te envolvem sem esforço. Em pouco tempo, você já está completamente imerso na canção.

Independência é um rock que fala, por meio das cordas do violão, sobre a busca por autonomia individual e liberdade de expressão. Já em Leve Desespero, a letra aborda a dificuldade de romper com padrões. Talvez seja essa a canção mais simples do repertório, evidenciando os elementos mais tradicionais do formato acústico.

Eu Vou Estar é outra grande canção desse projeto, com participação de Zélia Duncan. Com um instrumental que remete ao sertanejo e uma letra quase sem esperança religiosa, a canção é uma espécie de mea culpa cotidiana sobre um amor desmedido. Um dueto vocal memorável entre Duncan e Dinho.

Outro grande momento do acústico é a releitura de Primeiros Erros, canção de Kiko Zambianchi, que participa tanto nos vocais quanto na execução. Esse dueto poderoso promete se repetir nesta edição comemorativa. A letra fala de solidão e angústia emocional… sentimentos que desaparecem ao se entregar ao refrão marcante que ecoa na mente.

Cai a Noite. Essa canção e seus versos sugerem a busca por algo que dê sentido à vida. Uma busca por reflexão. Mas também traz à tona a lembrança de um amor que, mesmo distante, continua presente em cada lembrança vivida. Com instrumental ritmado e percussivo, é a calmaria mais bela do acústico.

Natasha é a canção da rebeldia. Conta a história de uma adolescente de 17 anos que vive intensamente a vida noturna. Com uma pegada twist e estilo Beatles, é a música “chiclete” do acústico.

Fogo é o sentimento que a música transmite. Uma balada sobre amor, submissão e o vício em uma paixão tóxica. O instrumental dialoga entre cordas e piano,  com efeitos de um ebow (espécie de slide eletrônico), criando uma atmosfera que emociona quase te fazendo arrancar lágrimas.

Por fim, encerramos com três canções do legado do Aborto Elétrico (primeira banda de Renato Russo):


Fátima — uma crítica social e religiosa.
Veraneio Vascaína — denúncia à repressão policial no final da ditadura militar, com referência às cores dos carros da polícia que lembravam o uniforme do Vasco da Gama.
Música Urbana — o maior sucesso do Capital Inicial nos anos 80, até a chegada deste acústico, que revitalizou a banda e a colocou novamente entre os grandes nomes do país a partir dos anos 2000.

A banda fará essa grande celebração no dia 02 de maio, na casa de shows Iguatemi Hall.

David Simon
Músico e Gerente Comercial

Este artigo contou com o apoio cultural da LT Veículos CE — a potência em quatro rodas.