Michelle Bolsonaro deixa comando formal do PL Mulher, mas amplia influência política e articulações para 2026

Mesmo após se afastar do comando nacional do PL Mulher, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro segue ativa e influente nos bastidores da política, articulando estratégias para manter a força eleitoral do bolsonarismo e, ao mesmo tempo, impulsionar candidaturas femininas do Partido Liberal à Câmara dos Deputados e ao Senado.

O afastamento ocorreu após a crise interna no PL no Ceará, provocada pela oposição pública de Michelle a uma possível aliança do partido com Ciro Gomes. Ainda assim, o episódio reforçou sua projeção política e evidenciou o peso que passou a exercer nas decisões da direita para 2026.

Com um estilo próprio, marcado por discursos de inspiração bíblica, linguagem evangélica e forte apelo emocional, Michelle tem despertado atenção e ampliado sua base de apoio.


“Meninas, levantem as mãos, nós somos a força delicada que vai transformar o mundo”, disse a ex-primeira-dama a uma plateia bolsonarista em Fortaleza, ao fim de novembro.


“Nós somos maioria, e nós definimos uma eleição”, completou, ao afirmar que aceitou a missão de fazer uma “política limpa” e incentivar a participação das mulheres.

A BBC News Brasil acompanhou, nas últimas semanas, a movimentação de Michelle, que se consolida como uma das principais lideranças da direita brasileira após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em agosto, condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes.

A passagem de Michelle pelo Ceará exemplificou seu novo papel político. Ao se posicionar contra a aliança do PL com Ciro Gomes, ela provocou turbulência interna no partido e mostrou como ganhou protagonismo nacional. Ex-secretária parlamentar e mãe de duas filhas, Michelle passou a ser vista como figura central para os rumos da direita no próximo ciclo eleitoral.

Ela tem articulado candidaturas conservadoras em vários estados e, a menos de um ano das eleições, já aparece em pesquisas de intenção de voto como nome competitivo para enfrentar o presidente Lula. Analistas e políticos a classificam como a maior liderança feminina da política brasileira hoje, com força ancorada em sua autenticidade como líder conservadora cristã.

“Isso tem uma força política enorme, ainda mais por ela ser esposa da maior liderança da direita no país”, avalia o ex-deputado federal Deltan Dallagnol (Novo). “Ela acaba sendo, na minha visão, a segunda maior liderança política da direita no Brasil”, completa o ex-procurador da República.

A ascensão de Michelle, no entanto, também gera desconforto dentro do PL e no núcleo do bolsonarismo. Sua crescente projeção teria influenciado Jair Bolsonaro a indicar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como seu nome preferencial para disputar o Planalto, movimento que também envolve o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Bolsonaro deve comentar o tema em sua primeira entrevista desde a prisão, marcada para a próxima terça-feira (23/12), ao portal Metrópoles, aumentando a expectativa sobre a definição de quem herdará seu capital político em 2026.

Nascida na Ceilândia, região de baixa renda do Distrito Federal, Michelle é filha de uma dona de casa e de um motorista de ônibus aposentado. Começou a trabalhar logo após o ensino médio, foi demonstradora de produtos em supermercado e chegou a cogitar a carreira de modelo, abandonada por orientação da igreja.

De primeira-dama discreta a líder política nacional, Michelle Bolsonaro emerge como uma das personagens centrais da direita brasileira — e peça-chave no tabuleiro eleitoral que começa a se desenhar para 2026.