Ao longo da madrugada e da manhã desta quarta-feira, 60 corpos foram levados até a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas, no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio. Os cadáveres teriam sido retirados da mata da Vacaria, na Serra da Misericórdia, onde ocorreram os confrontos mais violentos entre policiais e traficantes na megaoperação de terça-feira. Com isso, sobe para 128 o número de mortos na ação mais letal da polícia no estado. Entre os que acompanham a cena predomina o silêncio profundo, enquanto muitos se aproximam para tentar reconhecer os mortos. Pessoas com luvas estão cortando partes das roupas dos mortos para facilitar a identificação. É esse grupo que contabiliza os mortos.
O número de mortos ainda pode aumentar. Segundo a TV Globo, seis corpos foram deixados, também nesta quarta-feira, no Hospital estadual Getúlio Vargas, que concentrou o atendimento aos baleados na megaoperação.
Por volta das 10h, equipes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) chegaram à praça onde os corpos estão expostos. Os PMs subiram uma das ruas que dá acesso a comunidades mais acima do Complexo da Penha. Houve correria de moradores, assustados com a chegada da polícia. Simultaneamente, chegou mais um rabecão do Corpo de Bombeiros para remover os mortos.
Corpos enfileirados e silêncio na favela um dia após operação mais letal do RJ
Às 3h, uma fileira de cadáveres começava se formar na Praça São Lucas. Nas horas seguintes mais corpos foram levados até o local. Eles chegaram no endereço transportados em caçambas de caminhonetes e são retirados pelos próprios moradores, antes de serem adicionados à fileira que já soma dezenas de mortos. No início da manhã, por volta de 7h30, mais corpos ainda chegavam à praça.
Pouco antes das 8h três rabecões se posicionaram perto dos cadáveres. A maioria deles começou a ser descoberta, enquanto centenas de pessoas acompanhavam a cena.
Desespero, indignação, choros e lamentos: as reações diante dos corpos enfileirados
— Cadê o meu filho? — gritou uma mulher.
Algumas pessoas argumentaram que um dos homens teria se entregado à polícia e, mesmo assim, foi morto.
— Nunca vi isso — diz um morador.
Os moradores da comunidade se aproximam dos mortos e levantam os lençóis e cobertores que os cobriam para ver os seus rostos e reconhecê-los. No entorno, dezenas de pessoas observam a cena e apontam para os corpos, enquanto outros limpam as lágrimas. Uma família se ajoelhou ao redor de um dos mortos:
— Como pode destruir tantas famílias, tantas vidas? E ficar por isso mesmo? — disse a mãe, enquanto passava a mão no rosto do filho morto.
Uma mulher, ao reconhecer o genro entre os mortos, passou mal e precisou ser assistida por parentes e vizinhos. Sem ar, ela começou a tremer e ficou paralisada por cinco minutos, enquanto tinha água jogada sobre o rosto e pessoas a abanando.
— Ela está em estado de choque. Está passando muito mal. Ninguém merece passar por isso. Vamos levá-la ao hospital agora. Não é sobre a perda do genro, é sobre a violência geral que enfrentamos — disse uma irmã.
A operação
A operação ocorreu na terça-feira. Segundo dados oficiais do governo, 60 pessoas morreram, em sua maioria suspeitas de tráfico, além de quatro policiais. Não há confirmação se os corpos levados pelos moradores estão incluídos nesse total, o que pode indicar um número ainda maior de vítimas.
Moradores relatam que ainda haveria mortos no alto do morro, aumentando a apreensão sobre o real tamanho da tragédia. O secretário da Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes Nogueira, afirmou ao g1 que investigará a situação envolvendo os corpos levados pelos moradores.
