Não é crise: é falência. Com a metáfora do mundo corporativo, a Organização das Nações Unidas (ONU) alerta, em um novo relatório, que o esgotamento crônico de águas subterrâneas, a poluição e a degradação do solo colocam o planeta em uma era onde já não cabem os termos “estresse” ou “crise”. “Esse relatório revela uma verdade incômoda: muitas regiões estão vivendo além de sua capacidade hídrica, e muitos sistemas de água essenciais já estão falidos”, declarou o autor principal, Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas.
Lançado para subsidiar a Conferência da ONU sobre Água, marcada para dezembro nos Emirados Árabes, e antecedida por uma reunião preparatória no próximo mês, o documento baseia-se em um artigo que será publicado na revista Water Resources Management. Nele, Madani faz um apanhado das evidências científicas e propõe definir o cenário atual como falência hídrica. Segundo o autor, estresse se refere à alta demanda em relação ao fornecimento; crise é um “episódio agudo, que excede temporariamente a capacidade” de suprimento. Já o novo conceito define um “estado pós-crise persistente marcado pela degradação do capital natural, redução da capacidade de suporte hidrológico e necessidade de redução da demanda, realocação e adaptação”.
Com o agravante das mudanças climáticas, a situação global se agrava em níveis sem precedentes: 70% dos principais aquíferos do mundo estão em declínio, exemplifica Madani.
Aquíferos compactados não se recuperam, deltas afundados não voltam a subir e áreas úmidas perdidas não reaparecem, destaca Ruiz. “Em outros casos, ainda é possível estabilizar a situação e evitar maiores danos. O desafio reside em identificar e priorizar quais sistemas são reversíveis e quais não são”, acredita.
ATITUDES
O relatório da ONU define quatro pontos estratégicos para evitar a falência total dos recursos hídricos. O primeiro destaca a importância do clima para o ciclo hidrológico. O segundo diz que “a água transcende fronteiras políticas” e que o recurso pode “se tornar um poderoso foco de cooperação internacional”. Em terceiro lugar, Madani sublinha que “investir em água é também investir na mitigação das mudanças climáticas”, e pede que o tema seja incorporado em convenções das Nações Unidas, como a COP do clima. Por último, o especialista pede que processos internacionais interrompidos sejam retomados.
Informações – Correio Braziliense
