O Partido Democrático Trabalhista (PDT), que já foi uma das principais forças políticas do Ceará e teve protagonismo no cenário nacional, chega ao fim das eleições de 2026 mergulhado na maior crise de sua história recente. Sob o comando de Carlos Lupi, na direção nacional, e de André Figueiredo, no Ceará, a legenda acumulou derrotas, perdeu lideranças, viu suas bancadas desaparecerem e agora enfrenta o risco de ficar sem os recursos e as prerrogativas reservados aos partidos que superam a cláusula de barreira. Em dez anos, a sigla passou da condição de protagonista à necessidade de buscar uma federação, fusão ou incorporação a outra legenda para preservar sua viabilidade política.
O tamanho da derrocada, como o repórter Carlos Silva, no Jornal Alerta Geral, aparece nos números das urnas: em 2026, o PDT elegeu apenas seis deputados federais em todo o Brasil. No Ceará, onde chegou a comandar uma das maiores bancadas da Assembleia Legislativa, o partido não conseguiu eleger um único deputado estadual ou federal.
QUADRO — PDT PERDE 22 CADEIRAS NA CÂMARA FEDERAL EM OITO ANOS
Eleições Deputados federais eleitos
2018 28
2022 17
2026 6
Em apenas oito anos, o PDT passou de 28 para seis deputados federais, uma redução de 22 cadeiras, equivalente a 78,6% de sua representação eleita para a Câmara dos Deputados. Entre 2018 e 2022, perdeu 11 vagas; entre 2022 e 2026, outras 11.
A derrota mais simbólica foi a do próprio André Figueiredo, que, após cinco mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, não conquistou a reeleição. Presidente estadual do partido, André acompanhou de perto o processo de desintegração da legenda entre 2023 e 2026, período em que o PDT perdeu praticamente toda a sua estrutura de representação parlamentar no Ceará.
ROMPIMENTO COM O PT EM 2022 MARCOU O INÍCIO DA DERROCADA
A crise que levou o PDT ao cenário atual começou a ganhar força em 2022, quando André Figueiredo, ao lado de Ciro Gomes, participou da decisão de romper a aliança histórica com o PT no Ceará e lançar Roberto Cláudio como candidato ao Governo do Estado.
A escolha contrariou o grupo liderado pelo então senador Cid Gomes, que defendia a continuidade da aliança política construída ao longo dos anos.
A derrota de Roberto Cláudio, com a eleição de Elmano de Freitas (PT) ainda no primeiro turno, abriu um período de disputas internas, afastamentos e perda de espaço político.
O conflito ultrapassou os limites partidários, provocou o rompimento político entre os irmãos Cid e Ciro Gomes e acelerou o esvaziamento das bancadas do PDT.
DE 13 DEPUTADOS ESTADUAIS A NENHUM REPRESENTANTE NA ASSEMBLEIA
Em 2022, o PDT elegeu 13 deputados estaduais no Ceará, resultado que demonstrava a força da legenda no interior e na Região Metropolitana de Fortaleza.
A crise interna, porém, provocou uma sequência de desligamentos. Dos 13 parlamentares eleitos, apenas Antônio Henrique, Queiroz Filho e Cláudio Pinho permaneceram no partido durante parte do processo de reorganização.
Em 2026, os três também deixaram o PDT e acompanharam Ciro Gomes para o PSDB.
O resultado foi o desaparecimento da representação pedetista na Assembleia Legislativa, cenário que poucos anos antes parecia improvável para uma legenda que participava diretamente das decisões sobre os rumos do Estado.
Na Câmara dos Deputados, o encolhimento foi igualmente expressivo. Dos cinco deputados federais eleitos pelo PDT no Ceará em 2022, quatro deixaram a sigla. André Figueiredo permaneceu, mas acabou derrotado nas urnas de 2026.
PDT NÃO ALCANÇOU QUOCIENTE ELEITORAL NO CEARÁ
A dimensão do enfraquecimento também ficou evidente na votação para a Câmara Federal.
Sem reunir votos suficientes para alcançar o quociente eleitoral, situado em torno de 250 mil votos segundo os números apresentados para a disputa, o PDT não conseguiu assegurar sequer uma cadeira entre os representantes cearenses em Brasília.
O partido que já teve papel central na política estadual terminou as eleições sem deputados estaduais e federais eleitos pelo Ceará, perdendo influência nas negociações institucionais e na articulação de recursos para os municípios.
LUPI TAMBÉM ENFRENTA DESGASTE NACIONAL APÓS CRISE NO INSS
No cenário nacional, Carlos Lupi chega ao fim de 2026 enfrentando não apenas a redução da bancada do PDT, mas também os efeitos políticos de sua saída do Ministério da Previdência Social.
Lupi deixou o cargo em meio à crise provocada pelas denúncias de descontos associativos irregulares em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS, episódio que desencadeou investigações e forte repercussão nacional.
A crise ampliou o desgaste político do dirigente, embora sua saída do ministério, por si só, não represente comprovação de responsabilidade pessoal nas irregularidades investigadas.
O resultado eleitoral de 2026, com apenas seis deputados federais eleitos em todo o País, agravou a situação de uma legenda que já enfrentava dificuldades para preservar sua presença nacional.
CLÁUSULA DE BARREIRA AMEAÇA RECURSOS E TEMPO DE PROPAGANDA
A partir de 2027, o PDT enfrentará um obstáculo adicional: as exigências da cláusula de desempenho, conhecida como cláusula de barreira.
Pelas regras aplicáveis às eleições de 2026, os partidos precisam cumprir critérios mínimos de votação nacional e distribuição regional de votos ou de deputados federais eleitos para manter acesso ao Fundo Partidário e à propaganda gratuita no rádio e na televisão.
Com apenas seis representantes eleitos para a Câmara, o PDT não alcança o critério alternativo baseado no número mínimo de deputados e depende da verificação de seu desempenho em votos para definir sua situação jurídica.
Caso não tenha cumprido nenhuma das exigências, perderá o acesso ao Fundo Partidário e à propaganda gratuita assegurada às legendas que ultrapassam a cláusula. Essas restrições não significam, automaticamente, exclusão de toda e qualquer distribuição de recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, que possui regras próprias.
Diante desse cenário, uma das alternativas discutidas no universo partidário é a formação de uma federação com outra sigla, mecanismo que permite a atuação conjunta dos partidos, preservando suas identidades jurídicas. A fusão e a incorporação são outras possibilidades, mas envolvem mudanças mais profundas na existência das legendas.
DE PARTIDO PROTAGONISTA A LEGENDA EM BUSCA DE SOBREVIVÊNCIA
A trajetória do PDT nos últimos anos deixa uma questão inevitável sobre a responsabilidade de suas lideranças.
Carlos Lupi, no comando nacional, e André Figueiredo, na direção cearense, estiveram à frente do partido durante o processo que resultou na perda de espaço institucional, no afastamento de lideranças e na redução expressiva de suas bancadas parlamentares.
No Ceará, o rompimento de 2022 com o PT se tornou um marco desse processo. A decisão de lançar candidatura própria ao Governo do Estado, seguida pela derrota eleitoral e pela divisão interna, teve consequências que se prolongaram até 2026.
Quatro anos depois, a legenda perdeu as bancadas estadual e federal, enquanto André Figueiredo, um dos protagonistas daquela escolha, ficou sem o mandato que exercia havia duas décadas.
No plano nacional, o PDT também viu diminuir sua capacidade de influência, ao mesmo tempo em que o desgaste de Carlos Lupi e a perda de representantes no Congresso ampliaram as dificuldades de reorganização.
A crise do PDT, portanto, não pode ser explicada apenas por uma eleição desfavorável. É o resultado de uma sequência de decisões políticas, rompimentos e disputas internas que reduziram a força de um partido historicamente importante para o Ceará.
O desafio agora é saber se a legenda conseguirá reconstruir sua identidade e sua presença institucional ou se terá de recorrer a uma federação, fusão ou incorporação para sobreviver politicamente.
A ironia dessa trajetória é que o PDT, que participou durante anos da construção de alianças e da definição de governos no Ceará, chega a 2027 sem representação parlamentar eleita no Estado e pressionado a buscar outras siglas para preservar seu espaço nacional. Uma derrocada que coloca Carlos Lupi e André Figueiredo no centro do debate sobre os erros, as escolhas e as responsabilidades pelo futuro do partido.