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Candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad costuma relatar a conversa que teve com uma passageira na época em que, como prefeito de São Paulo, acabara de inaugurar faixas exclusivas de ônibus na cidade. A mulher agora passava muito menos tempo no ônibus, mas parecia mais preocupada com o congestionamento para os carros do lado de fora. Haddad conta o caso com a intenção de ilustrar a dificuldade em agradar os paulistanos.

Hoje, ele é o segundo colocado na corrida presidencial, mas, em 2016, a situação era diferente. O petista era reprovado por 40% e aprovado por apenas 18%, segundo o Datafolha. E perdeu no primeiro turno para João Doria (PSDB). Haddad deixou a cidade com grandes obras paralisadas e sérios problemas de zeladoria — assuntos de grande visibilidade e historicamente muito cobrados dos prefeitos paulistanos. Por outro lado, ele deixava outras marcas além das faixas de ônibus, embora menos midiáticas. Exemplos são a renegociação da dívida, que desafogou as contas da cidade, e a criação da Controladoria Geral do Município (CGM), responsável pela descoberta do maior escândalo de corrupção recente, a máfia do ISS.

Haddad foi eleito em um cenário de crescimento econômico, com a promessa de revolução urbanística e social. Contando com a ajuda do governo de Dilma Rousseff (PT), ele elencava em seu plano grandes obras como 150 km de corredores de ônibus, 20 CEUs (centros de educação unificada), 43 unidades básicas de saúde e 55 mil moradias. A ajuda não veio e, quatro anos depois, não chegou perto de concretizar totalmente nenhuma das metas acima — o petista cumpriu 67 de 123.

Apesar da reviravolta na economia, ele insistiu no ambicioso plano inicial, iniciando novas obras. Ao sair, deixou ao menos 35 delas suspensas, entre as quais um hospital, corredores de ônibus e um terminal de transporte, segundo dados do município. Alguns desses esqueletos de obras estão abandonados até hoje. Os planos de Haddad foram sacudidos logo no primeiro ano de gestão, pelos protestos contra o aumento da tarifa de junho de 2013, o consequente congelamento da passagem e o reajuste do IPTU barrado pela Justiça.

Como resposta a junho, o petista focou em soluções baratas na mobilidade, que ajudaram a tirar os automóveis do foco da política de transporte. Fez 423 km de faixas exclusivas à direita para tentar tirar os coletivos do congestionamento — medida considerada paliativa diante da dificuldade de construir corredores de ônibus à esquerda, considerados mais eficientes. Parte das iniciativas também gerou forte oposição e acabou politizada e associada ao PT. Por exemplo, a criação de 400 km de ciclovias incluiu no viário um meio de transporte antes praticamente ignorado, mas houve contestações pela falta de planejamento e de critérios na implantação, principalmente de comerciantes que se sentiram prejudicados pela retirada de vagas de estacionamento.

Haddad intensificou o processo de redução de velocidades nas vias, incluindo as marginais Tietê e Pinheiros. Mesmo com a redução das mortes no trânsito, a medida gerou rejeição e foi usada por Doria nas eleições, que prometeu restabelecer os limites antigos nas marginais.

A zeladoria, cuja piora foi registrada nos indicadores, foi outro ponto explorado contra Haddad. Em 2016, a cidade varreu 22% menos lixo das ruas do que em 2013. Os buracos tapados caíram para menos da metade no período — em 2016, por falta de dinheiro, a Usina de Asfalto chegou a praticamente parar.

Os cortes do petista em 2016 afetaram vários serviços e até o programa Leve Leite, mas, ao fim, ele entregou a prefeitura no azul à gestão seguinte. A prefeitura chegou a conseguir grau de investimento da agência Fitch Ratings. A herança que ajudaria o sucessor, porém, seria a renegociação da dívida da cidade, que teve mudança no indexador. O saldo devedor despencou de R$ 74 bilhões para R$ 27,5 bilhões.

A queda na dívida possibilitou que a cidade pudesse voltar a fazer empréstimos para investir em obras, além de diminuir em quase R$ 200 milhões a parcela mensal paga à União. Isso foi consequência de ação na Justiça proposta por Haddad contra a União para que o novo cálculo de renegociação da dívida passasse a valer e, depois, acordo judicial entre as partes.

Outra marca que economizou dinheiro foi a criação da Controladoria Geral do Município (CGM). O órgão descobriu a máfia do ISS, esquema de cobrança de propina em obras que havia dado prejuízo de mais de R$ 500 milhões à cidade. Também implementou auditorias regulares e medidas de transparência. Entre as metas com menor percentual de cumprimento está a moradia.

Haddad entregou menos de um terço das unidades habitacionais prometidas. Além disso, apesar da criação de novos abrigos, o número de pessoas morando nas ruas seguiu aumentando. A assessoria de Haddad afirmou que a gestão se passou em período de forte recessão, sem repasses prometidos pela União. “Ainda assim, organizou as finanças e deixou várias obras em andamento e licitadas.” Ela ressalta ainda que a administração foi marcada pelas manifestações de 2013 e pela resistência ao reajuste do IPTU, “que representaram grandes prejuízos no orçamento”.

Com informações do Jornal Folha de São Paulo