A aprovação no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) não foi imediata, nem simples, para a cearense Elisa Vidal, de 22 anos. O resultado, divulgado neste mês, coroou um percurso de cinco anos de preparação intensa e cinco tentativas até que o sonho antigo se tornasse realidade: estar entre os 180 aprovados no vestibular do ITA 2026.
Considerado um dos processos seletivos mais rigorosos do Brasil, o vestibular começou ainda em 2025 e reuniu provas objetivas, avaliações discursivas e inspeção de saúde. Entre os selecionados, ao menos 63 são cearenses. Apenas três são mulheres — Elisa é uma delas.
A ligação que confirmou a aprovação veio da vice-reitora da instituição, Emilia Villani. “Foi muito emocionante. Mas a ficha não cai na hora, você só acredita quando vê o nome na lista. O que senti foi um grande alívio. Meus pais se emocionaram mais do que eu”, conta a estudante.
A trajetória até o ITA começou ainda cedo, marcada pela afinidade com as disciplinas de exatas e pela participação em olimpíadas científicas. A vocação levou Elisa a tentar o vestibular como treineira por dois anos, antes mesmo de concluir o ensino médio.
Em 2020, ao final da educação básica, ela chegou a ingressar no curso de Engenharia da Computação da Universidade Federal do Ceará (UFC), onde cursou dois semestres. Paralelamente, mantinha a preparação para o ITA em cursinhos online. “Percebi que passar exigia um nível muito alto de dedicação. Decidi sair da federal e focar totalmente na preparação”, relata.
O caminho foi marcado por frustrações e recomeços. “Teve ano em que errei o gabarito e não cheguei nem à segunda fase. Em outro, não tive pontuação suficiente. Houve vezes em que cheguei muito perto e não consegui. Mas insisti”, lembra.
A rotina era exaustiva. “Eu acordava cedo, ficava o dia inteiro em frente ao notebook e só parava à noite. As costas doíam, a saúde mental também era afetada. Foi um período muito difícil”, descreve. O suporte emocional veio da convivência com colegas que compartilhavam o mesmo objetivo. “A turma do ITA tem um senso de união muito forte. Sempre existia uma rede de apoio.”
Ainda assim, a predominância masculina no ambiente de estudos pesava. “Sentia muita falta de ter mais meninas comigo. Mesmo com amigos homens, faz diferença saber que existem outras mulheres vivendo a mesma realidade”, afirma.
Encontrar esse espaço de identificação foi decisivo. “Estar num ambiente de cobrança extrema já é desafiador. Quando você percebe que as mulheres são minoria, pode surgir a sensação de que aquele não é o seu lugar. Ter outras meninas por perto fez uma diferença absurda”, conclui.
