A semaglutida, medicamento usado no tratamento da obesidade e da diabetes tipo 2, pode ajudar a reduzir alguns indicadores do consumo de álcool, segundo dois ensaios clínicos publicados em revistas científicas.
As pesquisas avaliaram versões oral e injetável do medicamento e encontraram resultados promissores, mas não conclusivos, para o tratamento do alcoolismo.
Os resultados, no entanto, variaram conforme o indicador analisado. Os dois estudos são de fase 2, envolveram grupos pequenos e apontam a necessidade de novas pesquisas para determinar se a semaglutida pode se tornar uma opção segura e eficaz para tratar a dependência de álcool.
Estudo com semaglutida oral identificou menos episódios de consumo excessivo
O estudo mais recente, publicado em setembro de 2026, é um ensaio clínico com a versão oral da semaglutida e acompanhou 50 adultos com transtorno por uso de álcool moderado a grave durante oito semanas.
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente entre os grupos que receberam o medicamento ou placebo. A dose utilizada foi de 3 miligramas por dia nas primeiras quatro semanas e de 7 miligramas por dia nas quatro semanas seguintes.
Os pesquisadores não identificaram diferença estatisticamente significativa entre os grupos na fissura por álcool provocada por estímulos em ambiente de laboratório nem na média de bebidas consumidas por dia.
No entanto, em comparação com o grupo que recebeu placebo, a pesquisa encontrou redução do desejo de beber relatado pelos participantes em situações cotidianas, das consequências negativas relacionadas ao consumo de álcool e dos dias de uso de cannabis entre os participantes que também consumiam a substância.
Os autores concluíram que os resultados justificam a continuidade do desenvolvimento clínico da semaglutida para o transtorno por uso de álcool. O estudo, porém, não demonstra que o medicamento seja eficaz para todas as pessoas com o transtorno.
Versão injetável também apresentou resultados promissores
O ensaio publicado no JAMA Psychiatry avaliou 48 adultos com transtorno por uso de álcool que não estavam procurando tratamento para a condição. O acompanhamento durou nove semanas, com doses semanais de semaglutida ou placebo.
No teste de laboratório realizado após o tratamento, os participantes que receberam semaglutida consumiram menos álcool do que os que receberam placebo.
O grupo tratado também apresentou redução do desejo semanal de beber e da quantidade consumida por ocasião de consumo.
Os pesquisadores, entretanto, não observaram diferenças significativas na média de bebidas consumidas por dia nem no número de dias em que os participantes beberam.
Por outro lado, a redução dos dias de consumo excessivo foi maior ao longo do tempo entre os participantes que receberam o medicamento.
Os autores destacaram que os resultados são evidências iniciais e que ensaios clínicos maiores são necessários para avaliar a relevância dos efeitos e a possibilidade de utilizar medicamentos dessa classe no tratamento do transtorno.
Como a semaglutida poderia influenciar o consumo de álcool?
A semaglutida pertence à classe dos agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao GLP-1 (Glucagon tipo 1). Esses medicamentos atuam em mecanismos relacionados à regulação da glicose, do apetite e da saciedade.
Pesquisas anteriores, incluindo estudos pré-clínicos e observacionais, levantaram a hipótese de que a atuação sobre esses mecanismos também possa influenciar o sistema de recompensa cerebral e reduzir o interesse pelo álcool.
Os ensaios clínicos citados investigaram os efeitos do medicamento sobre o consumo e a fissura por álcool, mas não estabelecem definitivamente quais mecanismos explicam os resultados observados.
Medicamento ainda precisa ser estudado para essa finalidade
Apesar dos resultados promissores, as pesquisas não comprovam que a semaglutida seja um tratamento estabelecido para o transtorno por uso de álcool.
Os estudos tiveram duração limitada e envolveram um número reduzido de participantes, o que restringe a possibilidade de generalizar os resultados para toda a população.
Também é necessário avaliar os efeitos do tratamento por períodos mais longos, identificar quais pacientes poderiam se beneficiar e comparar a estratégia com outras abordagens terapêuticas.
A semaglutida não deve ser iniciada ou utilizada por conta própria para reduzir o consumo de álcool.
O tratamento do transtorno por uso de álcool exige avaliação individualizada por profissionais de saúde, que podem indicar acompanhamento psicológico, intervenções comportamentais e medicamentos apropriados, conforme cada caso.