O avanço da resistência a antibióticos tem acendido um alerta na área da saúde. O fenômeno, conhecido como resistência antimicrobiana, tem reduzido a eficácia de medicamentos antes comuns no tratamento de infecções, como as urinárias, e favorecido o surgimento das chamadas “superbactérias”.
Um estudo publicado na revista The Lancet projeta que as mortes associadas a esse problema podem crescer quase 70% até 2050, com impacto significativo em regiões como América Latina, sul da Ásia e Caribe, incluindo o Brasil.
Especialistas apontam que o uso inadequado de antibióticos é um dos principais fatores por trás desse cenário. Durante a pandemia de Covid-19, por exemplo, houve aumento no consumo desses medicamentos, muitas vezes de forma equivocada, o que contribuiu para acelerar o problema.
Diante desse contexto, a Secretaria da Saúde do Ceará lançou, no início deste ano, o primeiro Guia de Antimicrobianos voltado à Atenção Primária. O material é direcionado a profissionais como médicos, enfermeiros, dentistas e farmacêuticos, com o objetivo de orientar o uso correto desses medicamentos desde o primeiro atendimento ao paciente.
De acordo com o infectologista Lauro Perdigão Neto, um dos responsáveis pelo guia, a intenção é conter o avanço da resistência e preservar a eficácia dos tratamentos disponíveis. “As bactérias estão se tornando resistentes mais rápido do que a criação de novos medicamentos. Quanto mais conseguirmos retardar esse processo, maiores serão as chances de mantermos tratamentos eficazes no futuro”, explica.
O crescimento da resistência bacteriana segue um processo natural: ao serem expostas aos antibióticos, algumas bactérias sobrevivem e se multiplicam, tornando-se cada vez menos sensíveis aos remédios — até o ponto em que eles deixam de funcionar.
O guia elaborado pela Sesa reúne protocolos de diagnóstico e tratamento para infecções comuns no Ceará, como problemas respiratórios, dermatológicos e urinários. As orientações incluem apenas medicamentos disponíveis na rede pública, o que também facilita o planejamento e a distribuição de remédios pelos municípios.
A expectativa é que a iniciativa contribua para reduzir o uso indiscriminado de antibióticos e ajude a conter um dos maiores desafios atuais da saúde pública.
