Um novo estudo de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC) acendeu um sinal de alerta sobre os riscos do uso prolongado de medicamentos muito populares no Brasil, como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol. Esses remédios, conhecidos como inibidores da bomba de prótons (IBPs), são amplamente usados no tratamento de gastrite, refluxo e úlceras, mas podem comprometer a absorção de nutrientes essenciais quando utilizados por mais de 14 dias.
A pesquisa, publicada na revista científica ACS Omega, mostrou que o uso prolongado desses medicamentos pode provocar deficiências nutricionais, como anemia, além de aumentar o risco de problemas ósseos.
Segundo a pesquisa, em testes realizados com camundongos, os cientistas observaram alterações na absorção de minerais fundamentais como ferro, cálcio, zinco, magnésio, cobre e potássio.
CÁLCIO NO SANGUE
Um dos achados mais preocupantes foi o aumento significativo do cálcio no sangue, o que pode indicar que o mineral está sendo retirado dos ossos — um mecanismo que, a longo prazo, pode levar à osteoporose.
“Esse desequilíbrio sugere risco futuro de fragilidade óssea, embora estudos mais longos ainda sejam necessários para confirmar”, explicou Angerson Nogueira do Nascimento, professor da Unifesp e um dos coordenadores do estudo.
GRUPOS DE ANIMAIS
Nos experimentos, os animais foram divididos em dois grupos: um recebeu omeprazol e o outro, placebo. As análises ocorreram após 10, 30 e 60 dias de uso. Os que receberam o medicamento apresentaram acúmulo de minerais no estômago, desequilíbrios no baço e no fígado, aumento de cálcio no sangue e queda de ferro — combinação associada a maior risco de anemia e osteoporose. Também foram identificadas alterações em células do sistema imunológico.
Os IBPs agem bloqueando a produção de ácido no estômago, o que alivia os sintomas gástricos, mas também dificulta a absorção de nutrientes que dependem de um meio ácido para serem assimilados.
Segundo a pesquisadora Andréa Santana de Brito, da Unifesp, moléculas mais modernas como pantoprazol e esomeprazol podem ter efeitos ainda mais intensos, por serem mais potentes e duradouras.
USO RACIONAL DE REMÉDIOS
Para os cientistas, os resultados reforçam a necessidade de uso racional desses medicamentos. “Em alguns casos, pode ser necessário avaliar até suplementação, mas sempre com acompanhamento médico”, afirma Nascimento.
O alerta ganha ainda mais relevância após a Anvisa liberar, em novembro de 2025, a venda de omeprazol 20 mg sem receita. Embora o órgão destaque que as embalagens são limitadas a 14 dias de tratamento, os pesquisadores temem que a facilidade estimule a automedicação e o uso contínuo por meses ou até anos.
SEM BANALIZAÇÃO
“Não se trata de demonizar o medicamento, que é eficaz e importante. O problema é o uso banalizado e prolongado, inclusive para sintomas leves como azia”, ressalta Andréa. “Seus efeitos adversos não podem ser ignorados.”
