Vivas à cultura brasileira

Foto: Reprodução

Por Eunício Oliveira – Deputado Federal

‘A ignorância atravanca o progresso', alerta a antiga cultura popular. Aqui, a ignorância ou a “burrice” no sentido claro de promover a incapacidade coletiva de pensar, criticar, promover a ciência, a educação, a cultura livres de preconceitos, teorias conspiratórias e negacionistas.

Coincidência não é que governos autoritários e ditaduras prefiram amordaçar todos os ramos de expressão da liberdade, da música à literatura, das artes visuais ao teatro, chegando aos meios de comunicação tratados como inimigos do povo.

O progresso exige liberdade de pensamento, de organização, tudo o que a burrice política sabota. Um exemplo clássico tivemos na ditadura militar brasileira. Como viram que acabar com partidos políticos e eleições livres e diretas e cassar parlamentares não eram suficientes, pois a oposição resistia e crescia, partiram para
uma censura prévia radical.

No caso do cinema nacional, por exemplo, películas com temática social e política eram, praticamente todas, proibidas. O resultado desaguou no que ficou conhecido como a época de ouro da pornochanchada, filmes de baixa qualidade, mostrando um país malandro, safado, falando palavrões, com muita nudez.

Nada diz mais sobre a burrice do autoritarismo e o perfil doentio dos seus executores. Era a burrice administrada. Justiça seja feita à vários cineastas, roteiristas, produtores e artistas que, no meio de tudo isso, usando subterfúgios de linguagem e cenas aparentemente desconexas, conseguiam denunciar as crueldades
nos porões da ditadura.

Saudável e progressista é uma nação que contesta, persiste, denuncia e reivindica. Como fizeram nossas classes artísticas, entre 2018 e 2022, quando o então governo tentou destruir os mecanismos de fomento à cultura, como a Lei Rouanet, com restrições e mudanças administrativas.

Além de ameaçar extinguir a Ancine (Agência Nacional do Cinema), aquele governo contingenciou 43% do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), e vetou integralmente as Leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2, aprovadas pelo Congresso, com amplo apoio, para socorrer o setor cultural após a pandemia.

Os números dão eloquência à perseguição. Em 2018, entre investimentos, crédito e incentivos via FSA foram contratados R$ 970 milhões, que despencaram para R$ 506 milhões em 2021. A recuperação começou em 2022, já no governo Lula, para chegar a mais de R$ 1,4 bilhão no ano passado.

Para se ter apenas um idéia da importância das leis de incentivos, facilitação de crédito e financiamento, o filme “O Agente Secreto”, indicado para concorrer em quatro categorias do Oscar, entre elas de melhor filme internacional e melhor filme, custou R$ 27 milhões.

E, até a data da indicação (22/01) já arrecadou mais de R$ 52 milhões.

“Ainda Estou Aqui” que, entre diversos outros prêmios, no ano passado ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional e deu a Fernanda Torres a indicação para concorrer ao Oscar de Melhor Atriz, é outro exemplo que não pode faltar.

Os dois, entre muitas outras premiações, não só no cinema, também na música, na literatura, no teatro, mostram a resistência, a persistência e a qualidade de nossos agentes culturais. Mostram ao mundo que nossos brasileiros, quando livres de perseguições e com leis justas, está à altura do que de melhor se faz no mundo,
em todos os cenários. Vivas à cultura brasileira.