Alerta entre jovens: quase 1 em cada 3 adolescentes brasileiros já experimentou cigarro

Foto: Divulgação/ ONU

Quase um em cada três adolescentes brasileiros entre 13 e 17 anos já experimentou cigarro eletrônico. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, produzida pelo IBGE, mostram que o percentual passou de 16,8%, em 2019, para 29,6%, em 2024.

O avanço dos chamados vapes ocorre enquanto a experimentação do cigarro convencional apresenta movimento contrário. No mesmo período, o índice caiu de 22,6% para 18,5% entre os adolescentes.

Os números não significam necessariamente que o cigarro eletrônico tenha substituído diretamente o convencional, mas revelam uma mudança importante na maneira como adolescentes estão entrando em contato com a nicotina.

“Durante muitos anos, a prevenção esteve concentrada no primeiro cigarro. Agora, a nicotina chega com outra aparência, sabores variados e a ideia equivocada de que o produto oferece pouco risco. A embalagem mudou, mas o risco de dependência permanece”, alerta Roberto Rangel, médico de Família e Comunidade e gestor público.

VAPE TAMBÉM AVANÇA ENTRE JOVENS ADULTOS

O crescimento não se restringe aos adolescentes. Dados do Vigitel 2024, do Ministério da Saúde, mostram que o uso de cigarros eletrônicos entre jovens de 18 a 24 anos passou de 7,4%, em 2019, para 10,1%, em 2024.

O percentual é o maior registrado na série para essa faixa etária.

Um dos fatores que preocupam especialistas é a percepção de que o cigarro eletrônico seria menos prejudicial. Os dispositivos, porém, não produzem simplesmente vapor de água.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), os líquidos utilizados nos aparelhos podem conter nicotina, aromatizantes e substâncias tóxicas. Ao serem aquecidos, produzem um aerossol que é inalado e levado aos pulmões.

Alguns dispositivos utilizam ainda sais de nicotina, que permitem o consumo de concentrações elevadas da substância com menor desconforto na garganta.

SABORES E FORMATOS ATRAEM ADOLESCENTES

Sabores doces, aparelhos pequenos e discretos e a ausência do cheiro tradicional do cigarro podem contribuir para diminuir a percepção de risco.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que os aromatizantes podem mascarar o gosto e a irritação associados à nicotina, tornando esses produtos mais atraentes, especialmente para quem está começando.

A preocupação é maior durante a adolescência porque o cérebro ainda está em desenvolvimento. A exposição à nicotina pode interferir em áreas relacionadas à atenção, aprendizagem, humor e controle dos impulsos.

O aerossol dos dispositivos também pode conter partículas finas, metais e outras substâncias associadas a danos pulmonares e cardiovasculares.

FAMÍLIAS DEVEM FICAR ATENTAS AOS SINAIS

Vontade intensa de usar o vape, dificuldade para interromper o consumo e necessidade de aumentar a frequência podem indicar dependência. Irritabilidade, ansiedade, alterações no sono e dificuldade de concentração quando o adolescente fica sem o aparelho também podem ser sinais de abstinência.

Para Roberto Rangel, a descoberta do uso deve ser acompanhada de diálogo, e não apenas de punição.

“Uma abordagem baseada apenas em ameaça ou constrangimento pode fazer o jovem esconder o consumo. É importante entender quando começou, com que frequência usa, se consegue ficar sem o aparelho e se já percebe sintomas. A partir daí, a família pode buscar uma avaliação profissional e construir uma estratégia de cuidado”, orienta.

VENDA DE CIGARROS ELETRÔNICOS É PROIBIDA NO BRASIL

A fabricação, importação, comercialização e propaganda de cigarros eletrônicos são proibidas no Brasil pela Anvisa. Os dispositivos também não são autorizados como tratamento para abandonar o cigarro.

Pessoas com sinais de dependência podem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS). O SUS oferece avaliação e acompanhamento para tratamento do tabagismo e, quando houver indicação profissional, medicamentos para auxiliar no controle da abstinência.

Em 2025, cerca de 2,1 milhões de pessoas buscaram a rede pública para receber apoio para deixar de fumar, número que considera todas as formas de tabagismo, e não apenas os cigarros eletrônicos.

“O avanço do vape exige uma resposta articulada. Isso envolve informação, educação nas escolas, fiscalização do comércio ilegal e serviços de saúde preparados para acolher quem precisa de ajuda”, conclui Rangel.