A discussão sobre os impactos das bets e dos jogos de azar na vida financeira das famílias brasileiras encontra na ficção um retrato do ciclo que pode envolver quem desenvolve dependência em apostas. Na novela das oito “Quem Ama Cuida”, da Rede Globo, o personagem Ulisses, empresário, mergulha progressivamente na jogatina até comprometer os negócios e a própria família.
O exemplo da ficção, que é retrato da realidade, é citado pelo jornalista Luzenor de Oliveira, em seu comentário no Jornal Alerta Geral, como o vício nas apostas é devastador no campo econômico e da família.
Dentro de casa, Ulisses sustenta que sua rotina atribulada está relacionada aos compromissos comerciais e ao esforço para ampliar e preservar os negócios. A realidade escondida da família, porém, é outra: parte do tempo que diz dedicar às atividades empresariais é passada no cassino, diante das mesas de jogo.
É nesse ambiente que o personagem passa a alimentar uma expectativa recorrente: a próxima aposta poderá recuperar aquilo que já perdeu.
Perde uma vez. Volta a jogar.
Perde novamente. Retorna ao cassino acreditando que poderá recuperar o prejuízo.
A esperança de ganhar deixa de ser apenas uma expectativa e passa a alimentar um ciclo cada vez mais difícil de interromper.
A ILUSÃO DE RECUPERAR O DINHEIRO PERDIDO
A trajetória de Ulisses chama atenção justamente por mostrar um mecanismo associado ao comportamento problemático com jogos: depois de uma perda, o jogador pode ser levado a aumentar ou repetir as apostas na tentativa de “buscar o prejuízo”.
O dinheiro já perdido transforma-se, assim, em justificativa para continuar jogando.
Na ficção, Ulisses acredita repetidamente que uma nova rodada poderá mudar sua situação. A expectativa de recuperar o patrimônio o leva novamente à mesa de jogo, mas as perdas se acumulam e a situação financeira se deteriora.
DO JOGO À VENDA DA EMPRESA
Quando a situação se torna incontrolável, as consequências ultrapassam o cassino.
Ulisses compromete sua vida financeira e chega ao ponto de se desfazer da própria empresa, construída ao longo de sua trajetória como empresário.
O problema deixa, então, de atingir apenas quem joga. Chega dentro de casa.
As mentiras, as perdas financeiras e o comportamento compulsivo provocam uma crise no relacionamento. O casamento acaba e a estrutura familiar é profundamente afetada.
A novela utiliza, dessa forma, a trajetória do personagem para dramatizar uma sequência particularmente perigosa: a aposta, a perda, a tentativa de recuperar o prejuízo, uma nova perda e a repetição do jogo.
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FICÇÃO DIALOGA COM DEBATE SOBRE AS BETS
O drama apresentado na televisão ganha atualidade em meio à discussão nacional sobre as apostas on-line e seus impactos econômicos e sociais.
Embora a história de Ulisses seja ficcional e não possa ser utilizada, isoladamente, como retrato estatístico das famílias brasileiras, ela ilustra comportamentos que estão no centro do debate sobre o jogo problemático e a dependência em apostas.
A facilidade de apostar pelo celular acrescenta uma dimensão diferente ao problema: para participar de uma aposta on-line, não é necessário entrar fisicamente em um cassino. O jogo pode acompanhar o usuário durante todo o dia.
É justamente esse ciclo que torna o debate sobre as bets maior do que uma discussão sobre entretenimento ou movimentação financeira. Para quem perde o controle sobre o jogo, a busca pelo prêmio pode dar lugar à tentativa permanente de recuperar aquilo que já foi perdido.
Na novela, Ulisses descobre isso da maneira mais dura: começa perseguindo a expectativa de ganhar dinheiro e termina colocando em risco patrimônio, empresa, casamento e família.
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