Bom dos aplicativos abre rombo na proteção previdenciária e deixa trabalhadores sem auxílio hoje e aposentadoria amanhã

O avanço acelerado do trabalho por aplicativos no Brasil vem acompanhado de um problema que cresce quase na mesma proporção: a baixa cobertura previdenciária. Essa dura realidade atinge trabalhadores em todo o País, como acontece no Ceará.

Distantes do sistema previdenciário, homens e mulheres ficam sem cobertura do INSS no presente e no futuro. O impacto não se limita aos cofres do INSS e atinge, sobretudo, os próprios trabalhadores, que, desprotegidos diante de acidentes, doenças e afastamentos, chegam ao futuro sem direito à aposentadoria.

REALIDADE EM NÚMEROS

Os dados divulgados pelo IBGE, na última sexta-feira (4), colhidos por meio da pesquisa realizada em parceria com a Unicamp e o Ministério Público do Trabalho, mostram que, em 2025, apenas 19,4% dos motociclistas que trabalhavam por meio de plataformas digitais contribuíam para a Previdência Social.

Entre motociclistas que exerciam profissionalmente a atividade sem depender de aplicativos, a proporção era de 37,1%, quase o dobro. Ou seja, no conjunto dos cerca de 1,2 milhão de motociclistas profissionais existentes no país, apenas 31% contribuíam para a Previdência.

CANAL DE ORIENTAÇÃO: whatsApp (85) 99273.4353

O Sistema Ceará Agora mantém, aos sábados, com o Jornal Alerta Geral, a maior rede de educação previdenciária, pelo rádio e pela internet, sobre deveres e direitos no INSS. O ‘Alerta Geral’, com a participação do advogado Paulo Bacelar, dá orientação e esclarece dúvidas sobre todos os auxílios e aposentadorias pagas pelo INSS. As dúvidas podem ser enviadas pelo whatsApp (85) 99273.4353

OMISSÃO DO GOVERNO FEDERAL

A situação se agravou entre os trabalhadores de aplicativos: a cobertura caiu 2,2 pontos percentuais em relação a 2024. Entre os demais motociclistas, houve aumento de 0,8 ponto.

A omissão do Governo Federal ao ignorar campanhas voltadas a conscientizar esse segmento sobre a importância da cobertura previdenciária contribui para aumentar o buraco nas contas do INSS. Com um agravante: milhares desses trabalhadores irão precisar, no futuro, desse mesmo INSS ao buscar o BPC (Benefício de Prestação Continuada).

DESPROTEÇÃO SOCIAL

O próprio IBGE chama atenção para o baixo nível de proteção social de uma categoria especialmente exposta a acidentes e outros riscos ocupacionais.

Motociclistas de aplicativo quase dobram em três anos

Enquanto a cobertura previdenciária patina, o contingente de trabalhadores cresce rapidamente. Em 2025, o Brasil tinha 405 mil motociclistas trabalhando por plataformas digitais, equivalentes a 34,4% do total da categoria.

Em apenas três anos, esse número avançou 91,9%, saindo de 211 mil em 2022 para 405 mil em 2025. Entre os motociclistas que não trabalham por aplicativos, o crescimento no mesmo período foi de apenas 3,1%.

CONTRASTE

O contraste reforça o desafio: cada vez mais trabalhadores migram para plataformas digitais, mas uma parcela expressiva permanece fora do sistema contributivo.

A falta de cobertura previdenciária não se restringe aos motociclistas. Entre motoristas de automóveis que trabalham por aplicativos, apenas 25,5% contribuíam para a Previdência em 2025. Entre os demais motoristas profissionais, o índice chegava a 59,2%.

Considerando todos os condutores de automóveis, com ou sem uso de plataformas, a taxa de contribuição era de 43,8%, bem abaixo da média dos trabalhadores do setor privado, de 62,4%.

JORNADAS MAIS LONGAS E RISCOS DE ACIDENTES

Além da menor proteção previdenciária, os motoristas de aplicativos enfrentam jornadas mais longas. Embora o rendimento mensal médio seja ligeiramente superior ao dos demais condutores, o valor recebido por hora trabalhada é menor, segundo o levantamento.

O crescimento do trabalho por plataformas, portanto, abre duas frentes de preocupação: de um lado, reduz a base de contribuintes do sistema previdenciário; de outro, deixa milhares de trabalhadores sem proteção em caso de incapacidade, acidente ou doença e com o risco de chegar à velhice sem os requisitos necessários para uma aposentadoria.