O Brasil contabiliza mais de 3,6 milhões de rostos com restrições associadas a tentativas de fraude de identidade digital, segundo dados da CertiFace, empresa especializada em biometria facial e prevenção a golpes. O levantamento, referente a setembro de 2026, aponta um crescimento de 20% em relação a maio deste ano. O avanço representa aproximadamente 5 mil novos registros suspeitos por dia, ou três por minuto.
Os dados foram obtidos a partir de uma base de 140 milhões de rostos mantida pela empresa. Cada registro corresponde a uma face capturada durante um procedimento de verificação de identidade, como a abertura de uma conta digital. A imagem é transformada em um código criptografado, que permite identificar a mesma pessoa em tentativas posteriores de validação.
Quando uma face é associada a uma tentativa de fraude, ela passa a constar na base com uma restrição, permitindo que o sistema identifique possíveis reincidências em outros processos de verificação.
Fraude no BPC/Loas movimentou mais de R$ 86 milhões
O Ministério Público Federal (MPF) denunciou à Justiça Federal 35 pessoas suspeitas de participar de um esquema de fraude contra o Benefício de Prestação Continuada (BPC/Loas), pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Segundo a denúncia, o grupo criava documentos de idosos fictícios para obter os pagamentos do benefício em Minas Gerais. A movimentação ilícita teria ultrapassado R$ 86 milhões ao longo de mais de duas décadas.
De acordo com a investigação, o esquema começava em cartórios, com registros tardios de nascimento de pessoas que nunca existiram. Para viabilizar a emissão dos documentos, eram utilizadas testemunhas e declarantes ligados à própria organização criminosa.
A partir das certidões de nascimento, os envolvidos conseguiam emitir CPFs e documentos de identidade legítimos em nome dos idosos fictícios. Com a documentação, solicitavam os benefícios previdenciários e assistenciais ao INSS.
Para superar as etapas de identificação presencial e de cadastramento biométrico em bancos e agências da Previdência Social, o grupo utilizava os chamados “dublês biométricos”. Eram pessoas reais que cediam o rosto e as impressões digitais para se apresentar como diferentes beneficiários em municípios mineiros.
Mais de 170 laudos papiloscópicos e biométricos produzidos pela perícia da Polícia Federal (PF) confirmaram o método. Os exames identificaram impressões digitais iguais vinculadas a diferentes identidades nos sistemas previdenciários.
Outros integrantes da organização eram responsáveis por fornecer endereços e telefones, assinar procurações a rogo — utilizadas quando uma pessoa não sabe ou não pode assinar — e realizar os saques dos benefícios em caixas de atendimento e terminais eletrônicos.
Operação identificou 457 benefícios fraudulentos
A investigação contou com a atuação conjunta do MPF, da Polícia Federal, da Força-Tarefa Previdenciária em Minas Gerais e do Núcleo de Inteligência Previdenciária (Nuinp/MG). O trabalho identificou 457 benefícios considerados fraudulentos.
Desse total, 240 permaneciam ativos e tinham os valores sacados regularmente até 25 de agosto, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Leste do Espinhaço, apontada pelo INSS como a maior operação do ano.
Com a suspensão dos pagamentos, o Ministério Público Federal estima que foi possível evitar um prejuízo adicional de R$ 34,8 milhões aos cofres públicos.
Os 35 denunciados respondem por estelionato previdenciário majorado. Conforme a denúncia, 29 também são acusados de integrar organização criminosa, enquanto três são apontados como responsáveis pelo comando do grupo. Outros cinco respondem ainda por registro de nascimento inexistente, relacionado à criação das identidades fictícias utilizadas para obter os benefícios.
Como a investigação começou
A apuração teve origem em materiais apreendidos durante a Operação Fementido, deflagrada em 12 de julho de 2022 no Vale do Aço, em Minas Gerais.
O inquérito foi instaurado em 28 de junho de 2023. Posteriormente, o cruzamento de informações realizado pela Força-Tarefa Previdenciária permitiu identificar benefícios concedidos em nome de pessoas fictícias.
INSS afirma que reforça mecanismos de controle
Em nota, o Instituto Nacional do Seguro Social informou que aprimora continuamente os mecanismos de fiscalização e prevenção a fraudes. Entre as medidas adotadas está a exigência de cadastro biométrico, que pode ser realizado por meio da Carteira de Identidade Nacional (CIN), da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) ou do título de eleitor.
Segundo o instituto, a exigência vale para pedidos de benefícios assistenciais, como o BPC, apresentados desde 1º de setembro de 2024, e para solicitações de benefícios previdenciários feitas a partir de 21 de novembro de 2025.
O procedimento também inclui a verificação automática da situação do CPF na base de dados da Receita Federal.
O INSS acrescentou que realiza cruzamentos de informações entre diferentes bases de dados do governo federal para identificar inconsistências na concessão e na manutenção dos benefícios, com o objetivo de prevenir pagamentos indevidos e reduzir as fraudes.