Cigarro eletrônico eleva preocupação com casos futuros de câncer de boca entre jovens

Estudos experimentais apontam que o vapor dos cigarros eletrônicos pode provocar alterações celulares e genéticas na mucosa da boca, aumentando o risco de desenvolvimento de tumores ao longo do tempo. O alerta preocupa especialistas porque o câncer costuma levar anos para se manifestar, o que significa que os impactos do uso do vape entre adolescentes e jovens adultos podem surgir apenas nas próximas décadas.

O câncer de boca já figura entre os tipos de tumor com maior incidência no Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a estimativa é de cerca de 15,1 mil novos casos por ano no triênio 2023-2025. Entre os principais fatores de risco para a doença estão o tabagismo, o consumo excessivo de álcool, a exposição solar nos lábios e a infecção pelo HPV.

Além do número de usuários, especialistas demonstram preocupação com o perfil de quem utiliza os dispositivos eletrônicos para fumar. A maioria é formada por adolescentes e jovens adultos, que tendem a permanecer expostos aos efeitos dessas substâncias por muitos anos.

Dados do Inca, com base no Vigitel 2024, do Ministério da Saúde, mostram que o uso de cigarros eletrônicos entre adultos brasileiros chegou a 2,6%, o maior percentual desde o início da série histórica, em 2019. Entre pessoas de 18 a 24 anos, 10,1% afirmam utilizar vape atualmente, enquanto 24,8% já experimentaram o dispositivo. Entre os adolescentes, 76,3% continuam usando o cigarro eletrônico após o primeiro contato.

Embora a comercialização desses produtos seja proibida no Brasil desde 2009 — decisão mantida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2024 após reavaliação das evidências científicas —, os dispositivos continuam sendo vendidos de forma irregular e amplamente divulgados nas redes sociais, muitas vezes associados a sabores atrativos e à falsa ideia de que representam uma alternativa menos nociva ao cigarro convencional.

RISCOS

Especialistas explicam que a exposição contínua da mucosa da boca ao aerossol produzido pelo cigarro eletrônico pode desencadear processos inflamatórios, aumentar o estresse oxidativo, comprometer os mecanismos naturais de defesa do organismo e provocar alterações nas células. Com o passar dos anos, esses fatores podem favorecer o surgimento de tumores.

Um estudo do Instituto do Coração (InCor), da Universidade de São Paulo (USP), publicado em 2025, avaliou os níveis de nicotina na saliva de 417 usuários exclusivos de vape. Em parte dos participantes, foram identificadas concentrações equivalentes às de pessoas que fumam aproximadamente 20 cigarros convencionais por dia, evidenciando o elevado potencial de dependência desses dispositivos.

Além da nicotina, os cigarros eletrônicos contêm substâncias como propilenoglicol, glicerina e aromatizantes. Quando aquecidos, esses componentes podem formar compostos tóxicos e liberar metais pesados, como níquel, chumbo e cromo, reconhecidos pelos efeitos nocivos à saúde quando inalados.

SINAIS DE ALERTA

Especialistas recomendam atenção a sintomas que podem indicar alterações na cavidade oral, principalmente entre fumantes e usuários de cigarros eletrônicos. Feridas na boca que não cicatrizam por mais de duas semanas, dor persistente ao engolir, rouquidão ou alterações na voz por mais de 15 dias, caroços no pescoço e sangramentos sem causa aparente devem ser avaliados por um médico o quanto antes.