Corda volta a esticar entre Planalto e Alcolumbre; ofensiva do PT e operações da PF ampliam crise com o Congresso

A relação entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), voltou a entrar em rota de colisão em uma semana decisiva antes do recesso parlamentar. A ofensiva do PT para pressionar Alcolumbre a pautar a PEC que extingue a escala de trabalho 6×1 até o próximo dia 16 coincidiu com o agravamento da crise política provocada pelas recentes operações da Polícia Federal envolvendo emendas parlamentares, aprofundando o desgaste entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional.

Embora líderes governistas tenham informado que uma reunião entre Lula e Alcolumbre estaria praticamente acertada, o encontro ainda não foi confirmado. Nos bastidores, o presidente do Senado demonstra forte irritação e, assim como o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), atribui ao governo influência sobre as decisões do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino que atingiram o sistema de emendas parlamentares.

As operações da Polícia Federal reforçaram esse ambiente de tensão. Entre os alvos estão o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que teve R$ 119 milhões em bens bloqueados, e o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, apontado como padrinho político de Hugo Motta. Também foram suspensas emendas parlamentares investigadas por suspeita de irregularidades.

No diagnóstico de parlamentares, o episódio tornou ainda mais difícil a articulação do governo no Senado. Senadores avaliam, reservadamente, que novas investigações poderão alcançar integrantes da Casa, enquanto até aliados do Planalto admitem que propostas consideradas prioritárias para a campanha de Lula em 2026, como a PEC do fim da jornada 6×1 e a PEC da Segurança Pública, dificilmente serão votadas antes das eleições.

Enquanto isso, o PT intensificou a mobilização nas redes sociais. O presidente nacional da legenda, Edinho Silva, convocou militantes a pressionarem o Senado pela aprovação da PEC, utilizando a hashtag #AprovaSenado.

“Estaremos dando início a uma grande campanha de mobilização nas redes sociais para que a gente possa pressionar o Senado a votar o fim da jornada 6×1”, afirmou Edinho.

O secretário de Comunicação do partido, Éden Valadares, também reforçou a mobilização digital, enquanto a ex-ministra Marina Silva (Rede), pré-candidata ao Senado por São Paulo, aderiu à campanha cobrando que os senadores votem a proposta.

Nos bastidores, porém, a estratégia desagradou Alcolumbre. O presidente do Senado já havia reagido às declarações de integrantes do governo e do PT que afirmaram que ele seria responsabilizado caso a PEC permanecesse engavetada. Apesar disso, a orientação da direção petista foi manter a pressão pública sobre o comando da Casa.

Em meio ao clima de tensão, o líder do governo no Senado, Camilo Santana (PT-CE), tentou reduzir os atritos e alertou aliados sobre o risco de ampliar o conflito institucional.

“Temos que lembrar que somos governo e precisamos sempre dialogar para destravar os projetos de interesse do Brasil”, afirmou.

Além da PEC da escala 6×1, outro ponto de atrito é a Medida Provisória do Frete. A proposta, editada em março para evitar uma greve dos caminhoneiros ao reforçar a fiscalização do piso mínimo do transporte rodoviário, foi aprovada pela Câmara, mas segue sem votação no Senado. A MP perde a validade na próxima quinta-feira, reacendendo a ameaça de paralisação nacional da categoria.

Com o recesso parlamentar se aproximando, a deterioração da relação entre o Planalto e o Congresso tende a dificultar ainda mais a tramitação de matérias consideradas estratégicas pelo governo, ampliando o impasse político em um momento de intensa articulação para as eleições de 2026.