Crise entre Michelle e Flávio expõe fratura política e reacende debate sobre misoginia no bolsonarismo

A crise entre Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou de ser apenas uma disputa familiar e passou a representar uma fratura política com potencial de impacto nas eleições de 2026. O embate expõe a tensão entre o discurso de afirmação feminina defendido pela ex-primeira-dama e a permanência de práticas vistas como machistas dentro do bolsonarismo.

Ao relatar episódios de humilhação, desrespeito e sabotagem por parte do enteado e de aliados dele, Michelle passou a simbolizar, para parte do eleitorado conservador feminino, uma reação contra um ambiente político ainda dominado por homens. Flávio, por outro lado, passou a carregar o desgaste de uma candidatura presidencial que precisa reduzir rejeição entre mulheres, mas enfrenta acusações de hostilidade à autonomia feminina.

O estopim foi o vídeo de 27 minutos em que Michelle tornou pública a crise interna no PL. A ex-primeira-dama não tratou apenas de mágoas familiares, mas de uma disputa por espaço dentro da direita, entre o projeto político dos filhos de Jair Bolsonaro e a tentativa dela de construir, por meio do PL Mulher, uma plataforma própria de influência sobre candidaturas femininas, evangélicas e conservadoras.

A situação se agravou após Michelle esvaziar um ato organizado por Flávio com mulheres em Brasília e, em seguida, renunciar ao comando nacional do PL Mulher, depois de uma tentativa frustrada de mediação conduzida por Valdemar Costa Neto.

A saída foi interpretada como um recado político. Ao defender que mulheres ocupem espaços de decisão e poder, Michelle reposicionou a crise no campo simbólico da campanha: quem, afinal, representa as mulheres dentro do conservadorismo?

A crise também constrange Jair Bolsonaro, obrigado a se equilibrar entre a esposa e o filho, desorganiza a pré-campanha presidencial de Flávio e embaralha articulações importantes, inclusive no Distrito Federal. Nos bastidores, a avaliação é que o episódio pode deixar marcas profundas na estratégia eleitoral do PL em 2026.