FGV: beneficiários do Bolsa Família respondem por 85% do saldo de empregos formais desde 2023

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Oito em cada dez vagas formais líquidas criadas no Brasil desde 2023 foram ocupadas por trabalhadores que recebiam o Bolsa Família. É o que aponta estudo do Centro de Estudos Empíricos em Economia da Fundação Getulio Vargas (CEEE-FGV), divulgado nesta quarta-feira.

Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, o mercado formal brasileiro registrou saldo positivo de 5,38 milhões de postos com carteira assinada, já descontados os desligamentos.

Desse total, 4,58 milhões de vagas, o equivalente a 85,18%, estavam associadas a beneficiários do Bolsa Família.

ESTUDO CRUZA DADOS DO CAGED, CADÚNICO E BOLSA FAMÍLIA

O levantamento, assinado pelos economistas Valdemar Pinho Neto e Luiz Gustavo Barbosa, analisou a inserção produtiva de famílias em situação de maior vulnerabilidade.

A pesquisa cruzou informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) com registros do Bolsa Família e do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico).

O universo considerado inclui pessoas com mais de 14 anos empregadas formalmente.

No período analisado, o país registrou 91,8 milhões de admissões e 86,4 milhões de desligamentos, resultando no saldo positivo de 5,38 milhões de postos.

PESQUISADORES CONTESTAM TESE DE DESINCENTIVO AO TRABALHO

Segundo Valdemar Pinho Neto, o estudo não foi elaborado especificamente para responder ao debate político sobre o Bolsa Família, mas os números ajudam a discutir a ideia de que programas de transferência de renda reduziriam o interesse dos beneficiários pelo trabalho.

“A crítica de que os beneficiários do Bolsa Família não querem trabalhar não é válida de acordo com os números”, afirmou.

O pesquisador ressalta, contudo, que o levantamento mostra associação entre beneficiários e vagas ocupadas e não prova, isoladamente, que o programa tenha sido a causa direta da geração desses empregos.

CADÚNICO TAMBÉM TEM SALDO POSITIVO

Outros 1,26 milhão de trabalhadores que conseguiram vagas formais estavam inscritos no CadÚnico, mas não recebiam Bolsa Família.

Já entre trabalhadores fora do cadastro, o saldo no período foi negativo em 460,6 mil vagas.

Segundo Pinho Neto, parte desse resultado pode estar relacionada ao próprio aquecimento do mercado de trabalho, com maior rotatividade entre trabalhadores que possuem melhores condições de buscar novas oportunidades.

MULHERES, JOVENS E PARDOS SÃO MAIORIA

O perfil dos beneficiários que entraram no mercado formal é marcado principalmente por jovens, mulheres, pessoas pardas e trabalhadores com ensino médio completo.

A faixa entre 18 e 24 anos respondeu por 40,52% do saldo, enquanto pessoas de 30 a 39 anos representaram outros 20,97%.

Os trabalhadores pardos concentraram 62,71% das vagas, enquanto brancos responderam por 27,32% e pretos, por 8,81%.

As mulheres representaram 55,4% do saldo líquido de empregos entre beneficiários, contra 44,6% dos homens.

“Se fosse verdade que o programa desincentiva o trabalho, esperar-se-ia que as mulheres ficassem com o cartão e não trabalhassem. Mas a participação das mulheres também é relativamente maior”, afirmou Pinho Neto.

Outro dado de destaque é a escolaridade: 78,24% do saldo de empregos formais entre os beneficiários era formado por pessoas com ensino médio completo.

CEARÁ ESTÁ ENTRE ESTADOS COM MAIOR PESO DOS BENEFICIÁRIOS

O levantamento também mostra diferenças importantes entre os estados.

Em Maranhão, Alagoas, Ceará, Bahia, Pará, Rio Grande do Norte, Acre, Pernambuco e Sergipe, o saldo de empregos formais entre trabalhadores que não recebiam Bolsa Família foi negativo.

Nesses estados, os beneficiários do programa responderam por um volume de vagas superior ao saldo total, porque compensaram perdas registradas entre os demais trabalhadores.

Por esse motivo, a participação supera 100% em alguns casos, variando, segundo o estudo, de 104,04% em Sergipe a 117,42% no Maranhão.

Também apresentam participação elevada Paraíba, com 98,30%; Piauí, com 96,04%; e Minas Gerais, com 95,22%.

Os menores percentuais aparecem no Distrito Federal, com 50,07%; Santa Catarina, com 58%; Roraima, com 63,71%; e Paraná, com 64,55%.

ESTUDO NÃO MOSTRA QUANTO TEMPO BENEFICIÁRIO PERMANECE NO PROGRAMA

Os pesquisadores fazem algumas ressalvas importantes.

O estudo não permite identificar por quanto tempo cada trabalhador permaneceu no Bolsa Família ou no CadÚnico, nem se a pessoa empregada era a titular direta do benefício.

Também não mede especificamente os efeitos da chamada Regra de Proteção, mecanismo que permite que determinadas famílias continuem recebendo parte do benefício após aumento de renda.

Segundo o material, quando a renda por pessoa permanece dentro do limite previsto pela regra, a família pode continuar recebendo metade do benefício durante um período de transição.

“Não é porque uma pessoa na sua casa tem carteira assinada que isso já livra a família da extrema pobreza”, observa Pinho Neto.

FORMALIZAÇÃO É AVANÇO, MAS QUALIDADE DAS VAGAS AINDA É DESAFIO

Para os autores, o crescimento da formalização representa avanço importante em um país com elevada informalidade, mas não resolve sozinho os problemas estruturais do mercado de trabalho.

O estudo mostra que grande parte das vagas ocupadas pelos beneficiários está concentrada entre trabalhadores com escolaridade intermediária e em postos de menor qualificação.

“Só o fato de estar empregado formalmente, para o contexto do Brasil, já é um avanço. E traz algum grau de mobilidade social. Mas não significa dizer que é missão cumprida”, afirmou Pinho Neto.

Segundo ele, melhorar salários e qualidade das vagas depende de políticas adicionais de qualificação, desenvolvimento regional, produtividade e atração de investimentos.