Keiko Fujimori é eleita presidente do Peru após 22 dias de apuração

Foto: MARTIN BERNETTI / AFP

A candidata Keiko Fujimori, do Força Popular, foi declarada presidente eleita do Peru nesta segunda-feira com 50,135% dos votos, após o fim de uma longa apuração eleitoral. Com uma diferença de pouco mais de 49 mil votos entre os mais de 18 milhões de votos válidos, a filha do ex-ditador Alberto Fujimori foi escolhida para cumprir um mandato de cinco anos após três outras tentativas frustradas, em 2011, 2016 e 2021, confirmou a Oficina Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) do país. O esquerdista Roberto Sánchez, da coligação Juntos pelo Peru, herdeiro político do ex-presidente Pedro Castillo, terminou a corrida eleitoral com 49,865% dos votos.Play Video

A longa apuração das urnas do segundo turno, que durou 22 dias, foi precedida por um processo eleitoral conturbado, com acusações de fraudes, problemas logísticos e questionamentos sobre a lisura do pleito. Com a proclamação oficial do resultado, a presidente eleita tomará posse em 28 de julho, pondo fim ao mandato interino de José María Balcázar, que lidera o país desde fevereiro.

O segundo turno das eleições no Peru resultou em uma das disputas mais acirradas da história recente da América Latina. Os dois candidatos alternaram a liderança nas pesquisas até que Fujimori conquistou uma vantagem insuperável na semana passada. Com 99,86% das urnas apuradas, Keiko tinha 50,12% dos votos, uma vantagem de pouco mais de 43 mil votos sobre seu rival de esquerda, Roberto Sánchez, e que não poderia mais ser revertida, segundo as autoridades eleitorais.

Aos 51 anos, ela enfrentou Sánchez em um segundo turno apertado realizado no último 7 de junho, sob a ainda divisiva herança política de seu pai, que governou o Peru na década de 1990. Em um país acostumado à instabilidade política, Keiko não precisa fazer grande esforço para se projetar nacionalmente. Seu sobrenome é conhecido em todos os cantos do Peru.

— É uma “marca” que está bem posicionada, gostem ou não — afirmou o cientista político Jorge Aragón.

Elegante e bem preparada, com seus terninhos impecáveis e sorriso treinado, Keiko parece alguém criada para a política. Formada em Administração nos Estados Unidos, ela foi parlamentar, liderou o partido Força Popular e cresceu nos corredores do poder. Aos 19 anos, tornou-se primeira-dama depois que sua mãe rompeu publicamente com Alberto Fujimori, e cresceu convivendo com chefes de Estado e líderes estrangeiros.

O Peru teve oito presidentes na última década, vários deles destituídos após protestos ou envolvidos em escândalos de corrupção, pelo menos três governos de transição, uma tentativa de autogolpe, um ex-presidente preso e uma ex-presidente sob investigação.

A população foi às urnas no início do mês com a menor inflação média da região entre os países não dolarizados, uma economia estabilizada e a moeda forte — em relação ao dólar, por exemplo, o sol peruano acumulou uma desvalorização próxima do zero em 25 anos, contra cerca de 200% do real.

Dinastia

Alberto Fujimori conduziu o Peru durante a turbulenta década de 1990, derrotando os rebeldes maoístas do Sendero Luminoso e controlando a hiperinflação. Mas acabou desacreditado, exilado e preso por corrupção e crimes contra a Humanidade. Por décadas, o sobrenome Fujimori ajudou e assombrou Keiko ao mesmo tempo, garantindo reconhecimento imediato, eleitores fiéis e amplas redes políticas — mas também muitos críticos.

— Sinto falta dele — disse ela à AFP em abril. — Mas, por onde passo, as pessoas me lembram dele e me contam histórias.

Milhões de peruanos guardam lembranças mais sombrias de seu pai e se recusam a votar em qualquer pessoa que carregue o sobrenome Fujimori, fato determinante que bloqueou seu caminho à Presidência em três ocasiões.

— Nos últimos 25 anos, fomos governados por governos anti-Fujimori — afirmou ela durante a campanha, abrindo uma única exceção para Alan García. — Todos os outros se concentraram em insultos e em gerar ódio e divisão entre os peruanos.

Críticos responsabilizam ela e seu partido por grande parte da instabilidade política do Peru, citando a forte influência e as articulações da legenda Força Popular no Congresso.

Esta foi sua primeira campanha presidencial sem o pai, que morreu em 2024. Com a criminalidade agora como principal preocupação dos eleitores, ela apostou no legado dele resumido em uma única palavra: “ordem”.

— Acredito que os peruanos querem um Fujimori — disse ela. — Aqui estou.

Pessoas próximas a descrevem como alguém perseverante, determinada e disciplinada. À AFP, seu candidato a vice-presidente, Miki Torres, disse que “cada golpe que Keiko recebeu na vida não a quebrou; deixou-a ainda mais forte do que qualquer um poderia imaginar”.

Ela passou mais de um ano em prisão preventiva enquanto era investigada por suposta lavagem de dinheiro ligada ao escândalo de corrupção da Odebrecht. O caso continua sem desfecho. Por muito tempo vista como uma figura confrontadora, Fujimori tentou suavizar sua imagem e se apresentar como alguém mais conciliadora.

— Cometi erros — afirmou durante um debate presidencial. — Aprendi com eles e voltei muito mais forte.

Keiko, cujo nome significa em japonês “filha abençoada”, ficou conhecida popularmente como “a chinesa”, apelido que recebeu ainda na escola por causa dos olhos puxados. Mãe de duas filhas, de 18 e 16 anos, e divorciada de um americano, ela afirmou em uma entrevista biográfica que aprender a ser mãe foi mais difícil do que disputar a Presidência.